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Intervenção urbana: “não alimente as esperanças”

Intervenção urbana em terreno oriundo de demolição - autor desconhecido - Belo Horizonte

 

Uma intervenção urbana que logo me chamou a atenção. O autor (individual ou coletivo) teve uma sacada genial: remete à expressão “não alimente as esperanças” e ao mesmo tempo à literalidade de uma cerca, tal como no zoológico, quando os avisos pedem para “não alimentar” os animais. Na minha leitura, a imagem joga com as transformações da vida urbana (no caso, a demolição e as obras públicas no local), sempre em função dos automóveis. Seria uma ironia diante dos processos de modernização? Não alimente as esperanças… A intervenção em tela ocorre nas cercas de um terreno oriundo de uma demolição, para resolver as vias de transporte de veículos, no bairro Cidade Jardim, em Belo Horizonte. No outro aspecto, remete à questão existencial e também política, que conecta com a primeira. Poesia pura. 

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Ativismo e Análise Política Geral Políticas culturais Políticas públicas

Política pública de cultura como política de Estado

Joseph Beuys - A Matilha, 1969

 

Política pública: de conjuntura ou estruturante

Uma discussão que alguns movimentos, coletivos e indivíduos têm reiteradamente agendado, na área das políticas públicas de cultura, refere-se à distinção entre Políticas de Governo e de Estado.  Contudo, há quem acredite que as duas se equivalem. Mas o efeito prático de algumas ações, como a Lei de Fomento do Estado de São Paulo, e numa escola mais ampla, a agenda da gestão Gilberto Gil-Juca Ferreira no Minc, mostram que são coisas distintas, apesar de pertencerem à mesma lógica. E nessa linha, algumas  questões se colocam: sobre as relações entre Estado e Sociedade e sobre os modos de apropriação da esfera pública.

Enquanto a Política de Governo se articula em função de conjunturas,  uma Política de Estado propõe-se em ações de cunho  mais estruturante. Nesse último caso, os governantes, que se alternam no poder, estão obrigados a cumprir com determinadas linhas, programas e projetos. E mais do que isso, os governos têm de estabelecer conexões mais democráticas, além da mistura de instâncias técnicas e participativas, com pontos de vista mais amplos. 

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Conselho Municipal de Cultura: corporações ou multiplicidade?

Sol LeWitt wall drawing

A cidade de Belo Horizonte está em vias, finalmente, de emplacar o Conselho Municipal de Cultura. Porém, já pode nascer velho, caso prevaleça a exigência, no caso das áreas de linguagem (artes plásticas, música, artes cênicas e artes visuais), de representação por entidades. Numa reunião com a Fundação Municipal de Cultura, após intensa mobilização por esses e outros itens, a grande maioria dos presentes votou pela modificação da proposta de edital apresentada. O Movimento Nova Cena é um dos protagonistas dessa discussão, defendendo a eleição dos conselheiros pelo voto direto de seus pares, em assembléia designada para tal.

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Filosofia Geral Literatura Micropolítica

Blanchot e o cotidiano

“O cotidiano: o que há de mais difícil a descobrir”.

Assim Maurice Blanchot inicia um dos capítulos de A conversa infinita(tradução de João Moura Jr, Editora Escuta, 2007). Somos levados a passear por signos, conceitos e vislumbres desse estado de coisas que chamamos de cotidiano. E o cotidiano, reitera Blanchot ao longo do texto, é aquilo que “não se deixa apanhar”. Por ser o que nos escapa, “ele pertence à insignificância, e o insignificante é sem verdade, sem realidade, sem segredo, mas é talvez também o lugar de toda significação possível”. Blanchot caminha pelas diversas fases do cotidiano, apreendendo nesse movimento suas defasagens: revelações súbitas, iluminações avulsas, contrapontos e contratempos.

Numa primeira acepção, diz Blanchot, o cotidiano é “aquilo que somos em primeiro lugar e o mais frequentemente: no trabalho, no lazer, na vigília, no sono, na rua, no privado da existência”. Então, um movimento seria o de abrir o cotidiano à história, ao Verdadeiro. Lugar da Revolução.

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Ativismo e Análise Política Geral

31 de março: a hora da verdade no aniversário do golpe militar

Imagem de Tomás Rotger

31 de março de 1964. Eu tinha 10 anos de idade e brincava na rua com meus amigos. Ouvimos as sirenes e corremos para ver os carros de polícia subindo em alta velocidade a Rua do Ouro, em Belo Horizonte. Eles iam em direção ao Convento dos Dominicanos. Diziam que eles escondiam comunistas lá dentro.

Com o tempo vieram as aulas de Moral de Cívica. O regime militar tentava se perpetuar. Queriam porque queriam formar uma geração anticomunista, obediente e ufanista. Veio o milagre econômico. E assim que crescemos um pouco, o conhecimento das torturas e assassinatos cometidos pelos militares e policiais, com a conivência de muitos políticos e parte da sociedade.