A criminalização da cultura das ruas

Imagem: Rafael Lage

 

“Queremos devolver o poder às pessoas como coletividade. Queremos
resgatar as ruas.”
– RTS de Toronto

Naomi Klein, no livro intitulado Sem Logo – a tirania das marcas em um planeta vendido (Record, 2002), e do qual foi retirada a citação acima, reserva um capítulo sobre o “Resgate às Ruas”. Na linha de tiro de denúncia e exposição da vida que se faz mercadoria no capitalismo globalizado, a autora aborda as modalidades de uma “ecologia radical na selva urbana”. Os mobilizadores têm, segundo a autora, uma grande admiração pelos Situacionistas e desenvolvem diversas estratégias para a criação de um “espaço não comercializado na cidade”. Instaura-se uma vida compartilhada, uma ação que difere totalmente dos antigos protestos políticos.

Em Belo Horizonte, o movimento “Praia da Estação”, que surgiu em contraofensiva a um decreto municipal proibindo a realização de eventos culturais na Praça da Estação, é um exemplo típico, entre outros, de ações que procuram resgatar o espaço público. Uma ocupação carnavalizada e irônica, sem comandos centrais, criou um novo modo de resistência. Tornou-se um símbolo que une cultura, performatividade e ativismo. 

No capítulo citado, Klein mostra como a privatização e mercantilização dos espaços públicos anda pareada com a repressão aos modos de vida que proliferaram nas culturas urbanas:

“É uma das ironias de nossa época que agora, quando a rua se tornou a mercadoria mais quente na cultura da publicidade, a própria culturas das ruas esteja sitiada. De Nova York a Vancouver e Londres, punições policiais por grafites, colocação de pôsteres, mendicância, arte em calçadas, flanelinhas, jardinagem comunitária e vendedores de comida estão rapidamente criminalizando tudo que, na vida  de uma cidade, pertencia às ruas”.

A expropriação da vida comum e a sua realocação em espaços mercadológicos é a tônica dessa virada do capitalismo. Observo que já houve e continua havendo uma desterritorialização dos modos de vida comunitários, principalmente dos mais frágeis economicamente. Foi assim com as vilas e favelas de todos os centros urbanos, e Belo Horizonte não foge à regra. Populações foram arrancadas de seu habitat e enviadas para longe.  Marx dizia que “expulsar e dispersar gente é um princípio inabalável dos proprietários.” Entretanto, o que se torna novo no capitalismo é a mercantilização total dos espaços vividos. Vale a pena citar mais uma vez Naomi Klein:

“A privatização do espaço público na forma do carro continua a erodir os bairros e comunidades que definem a metrópole. Esquemas de estradas, “parques” de empresas, instalação de shoppings – tudo isso aumenta a desintegração da comunidade e o nivelamento de uma localidade. Todos os lugares ficam iguais. A comunidade se torna uma mercadoria – uma aldeia de compras, tranquila e sob constante vigilância. O desejo de comunidade é então preenchido em outro lugar, através do espetáculo, vendido a nós, de uma forma simulada. Uma “rua” ou “praça” de novela de TV imita a área que o concreto e o capitalismo estão destruindo. A verdadeira rua, nesse cenário, é estéril. Um lugar por onde passar, não onde estar. Ele existe somente como auxiliar de outro lugar qualquer – através da janela de uma loja, de um outdoor ou de um tanque de petróleo.”

Não bastasse isso, segue em reforço a esse processo a criminalização da cultura das ruas, que em Belo Horizonte tem se tornado uma regra e uma verdadeira “caça às bruxas”. Contrastando com uma gestão mais social e inclusiva dos problemas urbanas, vivemos agora uma “limpeza urbana” sistemática.

Quem são os alvos? Jovens pichadores (que foram enquadrados no crime de formação de quadrilha, sendo os Piores de Belô enviados para um presídio enquanto aguardavam julgamento), movimentos de ocupação, artesãos e skatistas que frequentam a Praça 7, o Duelo de MCs do Viaduto Santa Tereza (mantido depois de intensa mobilização, mas sob permanente ameaça), a intolerância diante das ocupações de imóveis, a proibição de eventos na Praça da Estação, para citar os principais.

A ausência de uma política pública inclusiva no trato dessas questões é o chama mais a atenção. E com raras exceções, parece que parte das esquerdas não tem se interessado muito pelo tema. Afinal, os habitantes desses territórios expressivos, efêmeros ou concretos (dos espaços de convivência, de arte e de moradia e sobrevivência), não possuem na sua maioria qualquer tipo de “representação” política. Portanto, não contam. Ou como mostra Rancière, não fazem parte do discurso, mas sim do ruído. E é o que a grande mídia tem mostrado: vandalismo, sujeira, irregularidade… E do lado do Estado e seus agentes: desobediência, desacato à autoridade, incômodo à vizinhança, destruição do patrimônio público, atividade ilegal… Uma e outra coisa, juntas, formam um produto pronto a ser vendido.

Nesse contexto da cidade, no qual se dá essa criminalização da cultura das ruas, é que deveríamos compreender a semântica da vida urbana. Quando vejo jovens fazendo uma guerra de travesseiros numa praça da zona sul da cidade, cabe perguntar se eles estão percebendo sua cidade fora dos nichos de consumo: expressões à margem e nas bordas, modos de vida diversos, processos de expropriação e desterritorialização,  linhas e frestas inusitadas na paisagem urbana etc.

Não acredito que se trata de adquirir algo como uma “consciência” – pois sabemos o que isso tem de “representação” e seu corolário, a exclusão da diferença. Uma inconsciência? Ficaríamos, ainda, no negativo. Ou, no mínimo, disponíveis para qualquer bobeira. Mas situemos  os fenômenos de borda, as linhas de fuga, as zonas de experimentação, as poéticas de intervenção a-significantes, as modalidades de reapropriação dos espaços públicos e da vida comum. Sim, até porque não é a transformação da política em discurso, e muitas vezes espetacular, que iremos desenvolver modos de resistir ao presente. Há linhas de intervenção que abrem brechas e rupturas perceptivas e não remetem, necessariamente, a conteúdos ditos “políticos”.

Sim, uma cultura pós-rancor, mas que não pode se transformar numa cultura de frivolidades. Até porque a violência do Estado está se abatendo, hora após hora, sobre as culturas e as vidas dos mais frágeis. Por isso, recomendo que não se deixe de ver os vídeos sobre a “limpeza urbana” promovida contra os artesãos. Não para gerar uma catarse, já que o conteúdo é de forte impacto emocional. Mas para ver que como se dá, pelos fundos, a construção da cidade oficial.

Referências

– KLEIN, Naomi. Sem logo: a tirania das marcas num planeta vendido. Editora Record, 2002.

– Vídeos sobre a “limpeza urbana”em Belo Horizonte – violência contra artesãos na Praça 7 – publicados no blog Beleza da Margem/à margem da Beleza:

 

A Beleza da margem/à margem da beleza: uma exposição marginal. Por Rafael Lage

A criminalização do artista – como se fabricam marginais em nosso país. Por Omar Motta, em Praça Livre.

Família de rua! Resistir sempre, mas sem perder a ternura! Por Eus-R

– Belo Horizonte: futuro das ocupações Dandara e Torres Gêmeas depende de diálogo com o poder público. Raquel Ronik

– Copa 2014 em Belo Horizonte: 2.600 famílias na rua?. Raquel Ronik

– Leilão para a compra de uma das “Torres Gêmeas” em BH.

Nova cruzada moral e caça às bruxas em Belo Horizonte. Por Luiz C. Garrocho

– Manifesto: liberdade aos Piores de Belô. Por Conjunto Vazio

– Poro: intervenções urbanas e ações efêmeras.

– Intervenção urbana: Conjunto Vazio.

– Obscena: agrupamento de intervenção urbana, instalações performáticas e estudos.

– Olho da Rua: imagens de uma intervenção urbana.

– Capitalismo e cultura livre. Por Pablo Ortellado

– Agradeço ao Prof. Sérgio Martins (Geografia, UFMG) a indicação da leitura do livro de Naomi Klein.

 

9 opiniões sobre “A criminalização da cultura das ruas”

  1. Texto maravilhoso. Temos que ficar atentos e salvar um espaço urbano precisoso que está correndo o risco de entrar em extinção.

  2. Camarada, muito bom o texto. Muito lúcida a percepção do espaço público se transformar em mero corredor entre espaços privados.

    Só uma correção, a foto que abre o texto esta creditada ao Estado de Minas, mas na verdade é uma foto minha.

    Abraços e grato pela iniciativa.

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