Um corpo que faz mapa: iluminações avulsas I

 

 

 

 

 

 

Como o corpo se faz num fenômeno de borda e produz uma cartografia?

Há corpos que não passaram por qualquer formação artística e que, no entanto, vivem estados de poesia. Estão fora dos regimes de significação habituais, constituindo antes fenômenos de borda.

Vejo um senhor negro que aguarda no ponto de ônibus, logo na subida da favela. É começo de noite e as pessoas se deslocam pesadas, de volta do trabalho para casa. O  homem que observo é pobre. Porém, ele  se veste com dignidade (é preciso dizer disso numa paisagem como a nossa, brasileira): camisa branca e social, calça e sapato. Contudo, percebo logo que seu trajeto não cumpre a função das outras pessoas que posso observar naquele horário, como a volta do trabalho para casa ou qualquer outra, mas está numa borda que eu não consigo definir.  

Os outros possuem um andamento binário: um passo depois do outro, sempre em linha reta, carregando pensamentos que o corpo não expressa, ou não pode expressar. Melhor dizendo: que o corpo não faz extraviar.

Este senhor, ao contrário, parece não ter esse corpo adestrado, voltado para uma finalidade extrínseca, socialmente objetivada. E se o teve, algo o faz errar. É ágil, apesar de beirar seus sessenta e tantos anos. Faz gestos inúteis, mas que passariam desapercebidos por outros, ocupados com seus eus enquanto traçam linhas previsíveis. O corpo que vejo faz mapa: produz uma série de trajetos em zig-zag que correspondem a posturas, modos de olhar para o infinito do horizonte sobre os telhados do morro, de amarrar um sapato, de demorar-se sobre o seu corpo esquálido, meio bambo e meio altivo, entre elegante e vagabundo. Rebate o intensivo no extensivo,  o afecto no percurso e vice-versa. Desenha um trajeto sem finalidades (não pega ônibus, apenas sobe o morro, mas não sabemos de onde vem e para onde vai): deambula cartograficamente.

 

Referências –

– Sobre a noção de cartografia:

DELEUZE, G. Crítica e Clínica. Tradução de Peter Pál Pelbart. São Paulo: Editora 34, 1997.

__________ e GUATTARI, F. Mil Platôs: Capitalismo e Esquizofrenia. Volume 1. Tradução deAurélio Guerra Neto e Célia Pinto Costa. Rio de Janeiro: Editora 34, 1995.

– Em busca do corpo anômalo – por L C Garrocho

 

 

6 ideias sobre “Um corpo que faz mapa: iluminações avulsas I”

  1. ao ler o texto, meu pensamento cria imagens. será que esse homem está a dançar? Será que essa dança é paisagem? Será que ambos estão enamorados? Suspiro. Corpo que se funde a paisagem…corpopaisagem. Movimentos que não se encontram em formas, e sim, em forças. Corpo afetado, paisagem afetada, corpopaisagem intensiva. Aquele velho senhor, elegante, fez dançar meu pensamento.

  2. Marcelle,

    Comentário muito bonito, que me leva adiante…

    Então, parece-me que dança, sim. E que o conceito de dança também possui seus devires.

    Abraços

  3. Incrivel..encantada..
    e muito triste em ser binária.
    O corpo com a fusão com tudo que verdadeiramente há, não meras construções do que devia ser..obrigada por este belo texto..

  4. Christiane,

    Somos compostos de linhas, diz Deleuze.

    Linhas segmentadas (se quiser, binárias), linhas flutuantes e linhas de fuga.

    Nem bem, nem mal.

    De um lado, podemos seguir padrões… Mas sempre temos as potências flutuantes e de fuga. O risco é cair, logo em seguida, numa linha mais dura ainda. Elas se entralaçam, não é? Então, curta suas linhas: elas estão aí… E quem diz “o que pode um corpo”? Ninguém, ninguém…

    Agradeço sua visita. Volte sempre.

    Abraços

  5. O caminho pode ser o mesmo, o sapato, a camisa e a calça também, os encontros não: o encontro com um percurso de chão interessante, com a paisagem/instante que o balanço do corpo capta e o encontro de um movimento ordinário numa composição espetacular… viva… poética.

  6. Salve, Tony

    O percurso, por si só, não é o mapa, certo? Para fazer mapa tem que haver um encontro… Vou com você nessa idéia.

    Abraços

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