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Filosofia Geral

Estética do afecto: trecho de um artigo de Simon O’Sullivan

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Delphine Seyrig (O ano passado em Marienbad/L'année dernière à Marienbad, Alain Resnais, 1961)

“Como poderia acontecer que, no pensamento sobre a arte, na leitura do objeto de arte, nós acabamos por perder  o que a arte tem de  melhor? Na verdade o que perdemos define a arte: a estética, porque a arte não é um objeto entre outros, pelo menos não um objeto de  conhecimento (ou não apenas um objeto de conhecimento).  Pelo contrário, a arte faz outra coisa. Na verdade, a arte é  precisamente a antítese do conhecimento; funciona contra o que Lyotard chamou uma vez de  ‘fantasias de realidade’ (A condição pós-moderna). Isso quer dizer que a arte pode muito bem fazer parte do mundo  (afinal de contas é uma coisa produzida), mas ao mesmo tempo está à parte do  mundo. E este distanciamento, no entanto, é o que constitui a sua importância.

Neste artigo, quero pensar um pouco sobre este  distanciamento, este ‘excesso’  ou ‘ruptura’  que, como observa  Lyotard, constitui a efetividade da arte  para além da sua existência como um objeto cultural. Eu quero afirmar que este excesso não precisa ser teorizado como um transcendente, podemos antes pensar o poder estético da arte num sentido imanente, através do recurso à noção de afecto.

Antes de prosseguirmos, farei um relance sobre o que se passou na Estética. O que aconteceu? O que causou esta  cegueira estética? Na disciplina História da Arte existem (pelo menos) dois fatores em  jogo. Em primeiro lugar, o marxismo (ou ‘ A História Social da  Arte’) e a propensão para explicar a arte, historicamente,  através do recurso a seu momento de produção.  Em segundo lugar, a desconstrução (ou a ‘Nova História da Arte’) e a propensão em bloquear as  interpretações históricas, enquanto estas ainda habitam seu quadro explicativo em geral. Marxismo e  desconstrução: a compreensão da arte como representação,  e, em seguida, a compreensão da arte como sendo uma crise de representação, apelando às origens como explicação final, e em seguida apagando essa noção de origem. Primeiramente, o Marxismo entrou em choque com a Estética. Uma beleza desinteressada? Uma estética transcendente? Nada disso: tudo não passa de ideologia! (1) Em seguida, a desconstrução também entra em choque com a estética.  O aparelho de captura que é a desconstrução:  Derrida ordenadamente reconfigura o discurso estético como um discurso de / sobre a representação.  A Estética é desconstruída, e arte torna-se uma promessa que não se cumpre.  Tanto o marxismo quanto a desconstrução foram, e ainda são, críticas poderosas. No entanto, a desconstrução  que é especialmente negativa e crítica por excelência, é na verdade e implicitamente uma  crítica do marxismo (de modo que Marx e Derrida serão sempre companheiros da mesma cama incômoda, pelo menos em nesse sentido) .

A leitura desconstrutiva não é, em si, uma coisa ruim, aliás, pode ser estrategicamente importante empregar a desconstrução precisamente para contra-atacar os efeitos ou  desativar certo tipo de  discurso estético (como uma espécie de crítica ideológica expandida). No entanto, feita a leitura desconstrutiva, o objeto de arte permanece. A vida continua. Arte,  queiramos ou não, continua produzindo afectos. Qual é a ‘natureza’ desses afectos? Será que eles podem ser desconstruídos? Ocorre que os afectos podem ser descritos de um modo extradiscursivo e extratextual.

Afectos são momentos intensivos, uma reação em/no corpo no nível da matéria. Podemos mesmo dizer que os afectos são imanentes à matéria. Eles são certamente imanentes à experiência. (Na trilha de Espinosa, que poderíamos definir como o efeito de afectar outro corpo, por exemplo, um objeto de arte, tem sobre meu corpo  e sobre minha duração corporal). Desse modo, os afectos não têm nada a ver com conhecimento ou significação; de fato, eles ocorrem num  registro diferencial, a-significante.  E de fato, é isto o que diferencia arte de linguagem, embora a linguagem também pode e deve ter um registro afectivo, na verdade, a significação em si pode ser entendida como  uma função afectiva complexa (o significado seria o efeito dos afectos).

Certamente, a partir de uma determinada perspectiva, os afectos se fazem significativos somente dentro da linguagem. Na verdade, o afecto pode ser ‘compreendido’, pode ser figurado, desde já como uma representação daquilo que poderíamos chamar de Ur ou afecto originário,  como uma origem ainda não atualizada (e indizível); e novamente, assim também para a desconstrução. E  os afectos são também, e primariamente, afectivos. Não existem afectos da negação ou do adiamento. Eles são o que compõe a vida, e  a arte. Pois há um sentido em que a própria arte é feita de afectos. Afectos cristalizados no tempo e no espaço. E para usar o termos de Deleuze-Guattari, e  assim nos movermos para fora da desconstrução e da representação,  os afectos são molecularidades que suprem molaridades. A molecularidade dever ser entendida aqui como a qualidade intensiva da vida e da arte, como as provisões que suprem, paralelamente e ulterior, a significação.

Mas o que se pode dizer sobre os afectos? O que precisa ser dito sobre eles?  Certamente, num espaço como o da História da Arte, onde a desconstrução – deixando a semiótica abandonada – torna-se hegemônica, a existência dos afectos necessita de uma visão mais assertiva. Como diriam Deleuze e Guattari, a arte é  um bloco de sensações, à espera de um espectador ou participante para ser reativado. De fato, você não pode ler os afectos, você só pode experimentá-los. O que nos leva ao cerne da questão: a experiência.

Paul de Man, um dos mais típicos porta vozes dessa ciência melancólica que é a desconstrução, escreve: “ trata-se de uma experiência temporal  da mutabilidade humana, histórica no mais profundo sentido do termo, na medida em que implica a experiência necessária de qualquer presente como experiência que  está passando,  e que torna o passado  irrevogável e inesquecível, indissociável de quaisquer presentes ou futuros” (148,49).

Tal o que acontece com Derrida, o mesmo ocorrendo com de Paul de Man: a experiência presente – o momento, o evento – é inacessível à consciência. Todos nós possuímos essas características (experimentamos momentos que estão passando). Se o afecto é precisamente a experiência presente, poderia ser dito, seguindo de Man et.al., que  nós somente conseguiremos uma espécie de eco, apenas a representação do afecto. Mas esta é uma história inteligente e sedutora, que vincula o afecto a um eixo logocêntrico.  Porém, eu me pergunto se o afecto seria algo realmente desse tipo. E também, se ele seria algo transcendente (justamente neste sentido, de uma coisa que estaria além da experiência). Como tenho sugerido, não é esse o caso, pois ao contrário, o afecto é imanente à experiência, e, além disso, toda escrita sobre o mesmo não deixa de ser realmente o que é: uma escrita. E uma escrita que produz um efeito de representação. (Parodiando um pouco Derrida, poderíamos dizer que, ao fazer a pergunta ‘O que é um afeto? ’ já estamos pressupondo que não há uma resposta – uma resposta que deve ser dada na linguagem). Temos, de fato, colocado o afecto numa oposição conceitual que sempre, e em todo lugar, faz promessas, mas frustra, em seguida, toda possibilidade de significação.

Tudo se torna uma escrita, e a arte uma espécie de escrita. Na verdade, o afecto é uma coisa bem diferente disso: para ser mais  preciso, é um evento ou um acontecimento. Realmente, é isto o que define o afecto. (…)

Na verdade, poderíamos dizer, seguindo Michael Fried e seus detratores, que esta oscilação entre a estética e a sua desconstrução tem animado o discurso da da história da arte até hoje. Mas este mecanismo descontrucionista, esta maneira de pensar a arte (e nós mesmos), inevitavelmente fecha a possibilidade de acesso ao evento que é arte. Com efeito, neste mecanismo, a arte é sempre pensada como um transcendente ou, com o advento da desconstrução, é sempre já posicionada e predeterminada pelo discurso que a rodeia – o evento, como sempre é capturados por representação. Nesse caso, a arte torna-se uma promessa quebrada, um anjo caído.

Mas será esse o fim da história? Haveria algum meio de resgatar a arte desta situação, deste duplo vínculo, sem necessariamente recair numa estética tradicional, transcendente? Na verdade, como poderíamos pensar a arte como evento? Esta é uma área escorregadia – e muito recente da filosofia, que tem escrito justamente sobre os meios de se pensar o evento. É quase uma questão de fé. E de ambos os lados você se depara com a desconstrução: o evento, como sempre já constituído, determinado pelo cenário do próprio evento. Ou então, você se torna mais religioso ainda: o evento como algo realmente inefável.  Importante: isso não envolve uma estética transcendente (sem retorno de Clement Greenberg e Kant). De fato, pode haver uma maneira de reconfigurar o evento como sendo imanente a este mundo, que não parte de nenhum tipo de plano transcendente, (e tampouco transporta-nos a partir dele), mas sim como emergindo do reino do virtual. No reino do virtual, a arte – obra de arte – não é mais um objeto como tal, ou não apenas um objeto, mas sim um espaço, uma zona, ou o que Alain Badiou chamaria de ‘event site’: ‘um ponto de exílio, onde é possível que algo, realmente, possa acontecer’ (84, n. 5). De qualquer modo, a arte é o lugar onde se poderia dar o encontro com o afecto.”

Observações:

– Este é apenas um trecho do artigo, que pode ser obtido na íntegra (em inglês) no site de Simon O’Sullivan, tendo sido originalmente publicado no Angelaki, journal of the theoretical humanities – volume 6 number 3 december 2001 – Routledge.

– As notas do autor não foram incluídas porque algumas são muito extensas. Elas podem ser encontradas no texto original.

Tradução livre de Luiz C. Garrocho –

Mais referências –

– Sobre a noção de afecto (como distinto de afeto) em Espinosa, ver a aula de Gilles Deleuze, de 24/11/1978 – Cours Vincennes

A imagem-afecto do filme de Alan Resnais, incluindo descrição, foi retirada do blog The Upturned Glass. Obviamente que ela não representa e nem significa o texto.

Por Luiz Carlos Garrocho

Artista cênico/performativo, filósofo, pesquisador e professor.

1 resposta em “Estética do afecto: trecho de um artigo de Simon O’Sullivan”

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