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Cozinhar é um ato revolucionário

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Cartaz produzido pelo Poro

 

O Poro – uma dupla de artistas formada por Brígida Campbell e Marcelo Terça-Nada – vem produzindo, além das intervenções urbanas e outras ações efêmeras, cartazes como este para distribuição gratuita.

O tema cozinhar é um ato revolucionário é um dos temas mais belos – não só pelo cartaz, mas também pelo ato em si. Você se cuida, valoriza cada momento, desenvolve estratégias vitalizantes, torna-se mais solidário. E não se esqueça de lavar as louças e deixar a pia limpa – senão, não é nada revolucionário.

Aprendi a cozinhar por volta dos 18 anos de idade, quando aderi à alimentação natural e macrobiótica. No começo, na minha casa, um rapaz disputar o fogão era quase um absurdo. Depois foi se tornando corriqueiro, até aceitável.

No meio do caminho, perdi esse vínculo com o ato de cozinhar. Em parte isso se deu porque adotei a alimentação crudívera. Que tem dicas muitos interessantes – principalmente sobre os brotos. Mas não é suficiente, pois o nosso cérebro  se desenvolveu quando passamos a utilizar os alimentos cozidos. A energia gasta na digestão dos alimentos crus foi utilizada para outros fins. Também está relacionado ao convívio – ao ato de cozinhar e comer juntos, segundo alguns estudos antropológicos.

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De Fast para Slow Food

Quando entro num fast food e a pessoa me diz que o pedido ficará pronto em 2 minutos, eu entro em pânico. Primeiro, porque aqueles rapazes e moças ficam correndo para um lado e para o outro numa dança infernal, sem sentido. Depois, porque uma comida desse tipo deve ser muito esquisita. Passei, então, a evitar esses lugares, não só por questão da comida mesma, mas por uma recusa ideológica do tipo de trabalho, no mínimo estressante, a que as pessoas estão sendo submetidas. Uma micro-política deveria, também, dar conta de pensar essa dança esquisita dos fastfoods e as conexões que gera no nosso eco-sistema interno e externo. E, além disso, pensar a estética de um mundo cujos alimentos são produzidos em escala industrial.

Por tudo isso, recebi com alegria, através de mensagem de Marcelo Terça-Nada, a notícia do web-design criado por ele e Cia. para um site superbacana: o Slow Food do Brasil. Há toda uma gama de informações e conexões sobre uma realidade possível, de pequenos produtores, de consumo curtido (expressão que vem de curtir o couro, de sofrer a ação do tempo). Vale a pena conferir o site, com muito conteúdo de sobra, para ser lido e revisto vagarosamente.

O psicanalista Célio Garcia, num seminário sobre Lacan e a Cultura, realizado no Centro de Cultura Belo Horizonte, com curadoria de Cristiane Barreto, dizia que o tempo lento é o tempo dos pobres, numa alusão ao geógrafo Milton Santos. Pedi que ele falasse mais um pouco sobre isso, pois eu estava numa descoberta pessoal, em termos de treimanento e criação corpórea, com o slow motion. Célio me disse que, na época da ditadura militar, ele e muitos outros exilados, trabalhavam na França selando cartas no serviço de Correios. Os ocidentais, dizia Célio, acostumados à escala industrial e hiperprodutiva, realizavam o trabalho com muita pressa, carta após carta. Já os africanos, dizia Célio Garcia, faziam aquilo com uma lentidão impressionante. Não havia motivo para correr. E nenhuma necessidade. Os gestos de Célio imitando os africanos eram fantásticos: passar a cola, passar a mão na carta, deixá-la num monte, para depois cruzar os braços, fazendo uma expressão de pausa que era, na verdade, de uma grande recusa. Somente depois disso, passavam para a outra carta.

Micro-políticas alternam velocidades e lentidões (Deleuze e Guattari) de um modo tático, de acordo com o momento, desobstruindo vias de desejo, evitando confrontos esmagadores, criando zonas de autonomia.