O futuro já chegou: a visão da cidade

Andamos por aí e muitas vezes não vemos o que está diante de nossos olhos. É necessário um olhar estrangeiro para captar essas coisas, acostumados que estamos ao que dirige nossa atenção: os pequenos objetos de interesse, as preocupações e paixões miúdas. Henry Lefebvre diz que as obras de ficção científica são as que melhor mostram  nossas cidades. Nos romances de ficção científica, diz Lefebvre,

“Ora os antigos núcleos urbanos – as Arqueópolis – agonizam, recobertas pelo tecido urbano que prolifera e que se estende sobre o planeta, mais ou menos espesso, mais ou menos esclerosado e cancerizado por placas; nesses núcleos destinados ao desaparecimento após um longo período de declínio, vivem e vegetam fracassados, artistas, intelectuais e gângsters. Ora reconstituem-se cidades colossais, trazendo para um nível mais elevado as antigas lutas pelo poder. No exemplo limite, na obra magistral de Azimov, ‘A Fundação’, uma cidade gigante cobre um planeta inteiro, Trentor. Ela possui todos os meios do conhecimento e do poder. É um centro de decisão na escala de uma galáxia, que ela domina.” (O direito à cidade)  

A imagem é de um edifício na área central de Belo Horizonte. Impressiona as costas desse imenso habitat. Em outros momentos, não chuvosos, aparecem as tolhas nas janelas, acenando para o sol ou para nada.  E sobe aos céus, imenso e imponente, ao mesmo tempo mudo e esquecido, mas fervilhante de singularidades. Parece que a imagem saiu diretamente do romance Heliópolis, de Ernest Jünger.

São esses lugares “fracassados”, do ponto de vista dos “novos urbanismos”, que se tornam potencialmente humanos. Eles trazem as marcas cansadas de outras expropriações e ajuntamentos coercitivos porque “econômicos”. Exibem, por isso, a face de uma violência urbana: na paisagem e no agenciamento das vidas. O importante era amontoar o máximo de pessoas, ocupar menos espaço e gerar mais lucro. No entanto, lá estão eles, esses espaços degradados, apontando para o futuro. Parecem dizer: ao contrário do que se imagina, as pessoas existem!

A fachada das costas do edifício exibe essas centenas de janelas. Parece um presídio. Talvez seja mesmo, dada a ideia de confinamento que os aglomerados habitacionais reservaram aos humanos: trabalhar, procriar e transitar entre um e outro. São lugares que viveram também um período das cidades nos qual o centro era um lugar importante, onde se davam também os encontros e vida cidadã. Não são mais e, no entanto, reinventam nas novas ocupações.
Ao lado desse conjunto, encontra-se o Edifício Malleta – outro gigante, que abarca escritórios, lojas, restaurantes populares, sebos e também um conjunto de moradias. Sérgio Rosa, num texto no Overmundo, fala do Malleta:

“O colossus de concreto erguido no centro da cidade causa um efeito de suspensão naqueles que adentram a sua grande barriga. ‘A cidade dentro da cidade’, um dos seus slogans mais conhecidos, traduz as milhares de pessoas que por aquelas entradas e saídas circulam, os 20 andares comerciais e os 31 residenciais ocupados por famílias e pessoas distribuídas em 359 apartamentos, que vão e vêm em 12 elevadores. Adormecido no cruzamento da Avenida Augusto de Lima com Rua da Bahia, ele observa silenciosamente a história moderna da cidade.”

São lugares que resistem à revelia dos administradores, dos novos urbanistas e gestores públicos aliados do capital. Diferente dos “espaços culturais” assépticos e oficiais, eles são a própria cultura no seu estado viral. Trazem a exuberância dos encontros, furtivos ou de celebração, comerciais e afetivos.

E por isso o humano, o existencial e, de certo modo, o estético e político, podem se conjugar de modos tão estranhos quanto criativos nesses velhos lugares. Então, eu lhe perguntaria: o que você conhece de sua cidade?

Compare-se  por exemplo, esses lugares com os núcleos urbanos que se irão se erguer junto à Cidade Administrativa, uma aberração criada pelo governo mineiro, com a assinatura de Niemeyer. Levaram os funcionários públicos para uma distância de quase hora e meia do centro da cidade. As pessoas viverão em trânsito ou deverão morar em volta desse templo moderno do Estado! Existências são submetidas para que o poder concentre em torno de si todos os seus subordinados. Imagine o que um menino ou menina, um adolescente ou  jovem, poderá fazer num mundo desses senão perambular por algum centro de consumo! Que territórios existenciais ele deverá inventar para não sucumbir à opressão do habitat, que nega todas as possibilidades do habitar?

De um lado, Laranja Mecânica, do outro Blade Runner. Junto a isso, a necessidade de apropriação e visões poéticas da cidade, ao mesmo tempo estranhadas. Que permitem entrever, nessa flutuação vadia do olhar, o que a vida administrada quer extinguir, limpar e excluir: o humano e suas proliferações.

O futuro já chegou.

Referências
– LEFEBVRE, Henry. O direito à cidade. Tradução de Rubens Eduardo Frias. São Paulo: Centauro, 2001.
Malleta e a alteração do espaço-tempo. Por Sérgio Rosa, no Overmundo.
Ernest Jünger. Wikipédia

 

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