Experimentação abre o Verão Arte Contemporânea

Caminho, em foto de Glenio Campregher

Verão Arte Contemporânea, projeto que reune a máquina de guerra de poéticas cênicas, visuais, corporais, literárias e outras, atracou estreando no Teatro Francisco Nunes, em Belo Horizonte, dois eventos singulares: Caminho e Salão QuasiArte, com destaque para a Cabana de Rubens Espírito Santo.

Caminho é uma criação do poeta e performer Ricardo Aleixo com o bailarino Rui Moreira, tendo ainda a participação do song designer Murilo Corrêa e dos dançarinos Rato e Leo Bboy. O espetáculo explora relações não hierárquicas entre som, palavra, imagem e corpo. Nada sobra nesse espetáculo – não há excedente de idéias, pensamentos ou criação. Há um fio correndo luminoso e afiado. Há momentos preciosos, nos quais linhas simultâneas são exploradas. As ações poéticas são minimalistas e sensoriais. A materialidade cênica é o próprio discurso, tendo a poesia verbovisual, como diz o próprio Ricardo Aleixo, como caminho que segue no paralelismo com o corpo.

Rubens Espírito Santo na Cabana, em foto de Glenio Campregher

No Salão QuasiArte, no foyer do Teatro Francisco Nunes, são expostos objetos que, como o nome diz, podem ser quase arte. Estão na fronteira. O público, no caso, é quem decide. Chamo a atenção para a Cabana de Rubens Espírito Santo, que veio de São Paulo para expor no Verão Arte Contemporânea a convite de Ione Medeiros, do Grupo Oficcina Multimédia.
Rubens criou uma instalação que é uma cabana, como ele chama. Preferiria dizer que se trata de um barraco em órbita. É uma arte que você pode usar. Isso pode ser difícil de conceber quando a arte tomou em alguns trezentos anos de História no Ocidente o caráter contemplativo. Ou porque algumas obras desse tipo tornam-se impossíveis de serem comercializadas no mercado convencional de arte, a que servem muitos críticos, diga-se somente para lembrar.

Na entrada, uma campainha com o aviso: Aperte e Theodor Adorno irá atender. No entanto, as referências que se encontram na cabana, ou no barraco orbital, não pertencem a uma identidade. Nem são somente eruditas e nem se restringem a um universo que circunscreveria um personagem social – como um mendigo, por exemplo. São emaranhados e pontas soltas que podem te levar para conexões não previstas, quer dizer, não-causais.

Na abertura do evento, um casal dançava juntinho num canto da cabana, que tem toca-dicos (vinil) e uma tv com imagens, enquanto outras pessoas vasculhavam suas paredes, sentavam-se, escreviam ou apenas olhavam. É uma arte psicótica, como lembrou uma atriz, ali presente. Abre conexões divergentes e que não estabelecem elos de significação. Não há metáforas, mas objetos encontrados num percurso. Fotos, citações, escritos, objetos diversos, tudo isso povoa um mundo. É também uma estética da probreza, que se contrapõe ao mundo fashion e frívolo de grande parte das produções em artes plásticas.

O evento continua com outras apresentações, nos Teatros da Fundação Municipal de Cultura, Francisco Nunes e Marília, tendo co-realização da Oficina Multimédia e da Prefeitura de Belo Horizonte. A idealização do Verão Arte é de Ione de Medeiros (Grupo Oficcina Multimédia), Keyla Monadjemi (Meia Ponta Cia. de Dança) e Rui Moreira

É um projeto de puro risco. Um grupo de artistas, sem recursos de Leis de Incentivo, procuraram a Fundação Municipal de Cultura, no final de 2006, para viabilizar o projeto. Foram garantidos os Teatros, as equipes cenotécnicas e apoio em divulgação. Cada artista, grupo ou coletivo de criação assume sua própria produção.

Abrir espaços para a arte contemporânea exige coragem,principalmente quando o mercado cultural tem a forte tendência ao mediano, ao comunicável, ao vendável. E a adesão das pessoas mostra que as políticas públicas podem abarcar a diferença e a singularidade, nem sempre tendo que esperar as grandes verbas. O que não quer dizer que os artistas abrem mão de melhores condições, mas apenas que, nesse momento, apostam no risco de abrir uma fenda na paisagem belohorizontina.

Como diretor dos Teatros da Fundação Municipal de Cultura, chamo a atenção para as potências do projeto Verão Arte Contemporãnea:

1. O projeto é afirmativo e procura a expansão de suas potências. Não é um encontro de lamurientos, mas de pessoas que resolveram modificar a paisagem do verão em Belo Horizonte;

2. Não pertece a nenhuma corporação artística. Não há um dentro e um fora nesse sentido. É um movimento. Acontece.

3. Define arte contemporânea pelo desejo de artistas atravessarem o seu próprio tempo. Não tentando retratá-lo ou se colocando como representantes de uma possível contemporaneidade. Não representam, as próprias coisas (e pessoas) estão ali: expondo suas criações. Contemporâneo não como uma categoria de qualquer pós-isso, ou pós-aquilo, mas como pensamento de um espírito de época, com suas ironias, com suas incertezas e potencial afirmativo.

Os Teatros Municipais cumprem, assim, uma de suas funções (além daquelas convencionais), que é, nas palavras do próprio Rubens Espírito Santo, numa entrevista à imprensa, a de perverter o sentido (prévio) do uso de seus espaços.
Mais informações sobre o Verão Arte Conteporânea em http://www.oficcinamultimedia.com.br/veraoartecontemporanea.htm