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Travessia de Arnaldo

Deu-se no dia 01.02.2011 a travessia de Arnaldo Garrôcho, meu pai, aos 94 anos de idade. Que o bardo da vida e da morte dessa possa lhe trazer alento e clareza. Morreu em casa, sem passar pelos hospitais e pelos procedimentos invasivos. O que para uns é  um privilégio, para outros uma sorte, e para alguns, uma maestria.

Arnaldo foi um cirurgião dentista, nascido em Teófilo Otoni, que veio para Belo Horizonte com sua família na década de 1960. Trabalhou no antigo INPS e no seu consultório particular. O meu irmão mais velho, também chamado Arnaldo, seguiu a mesma profissão.

Os últimos dias de meu pai foram aqueles em que todas as questões nos acossam e nenhuma resposta nos socorre. A não ser aquela que o azul dos seus olhos exibia: algo está se passando.

Para além e por entre as cotidianas facetas, vejo no meu pai os traços do empírico, do existencialista dramático, do contador de histórias e do clown.

Do empírico, sua dedicação ao ofício. Além de cirurgião, meu pai curtia fazer próteses dentárias.  E era com grande esmero que cuidava de dentaduras, numa época em que as pessoas perdiam os dentes muito cedo.  Certa vez, um amigo apresentou-me a mãe, que conhecera meu pai muitos anos atrás, em Teófilo Otoni. E ela me disse que, logo no início do namoro com seu marido já falecido, este lhe perguntara o que mais ela admirava nele. E ela respondeu: “seu sorriso, tão bonito!” O namorado tira da boca a dentadura, coloca na mesa e diz: “não é meu, é de Arnaldo, o dentista, foi feito por ele”!

Havia também uma preocupação ética com o ofício. Nos anos 50, quando não conseguiam identificar focos de infecção, alguns médicos  costumavam solicitar aos dentistas que retirassem todos os dentes dos pacientes. Meu pai desconfiava dessa orientação generalizada e sem bases empíricas. Então, examinava, relutava, acabava polemizando com os médicos, quando não encontrava os tais focos de infecção nos dentes. Conseguiu salvar alguns sorrisos.

Suas histórias eram dramáticas. Carregadas de uma forte expressividade, resvalando para um existencialismo quase patético: aquele em que a situação humana torna-se singular ao extremo. Em que o frágil e o brutal se entremeiam e pequenas frestas iluminam tudo.

As melhores histórias ocorreram mesmo  no período em que vivia em Teófilo Otoni. Tempos difíceis, porém carregados de texturas, cheiros e imagens. Contava, entre outros casos, o de uma mulher  que estava com febre há vários dias. O médico  que chefiava a equipe chegara do exterior, exibindo orgulhosamente sua condição superior. Reuniu os colegas provincianos e deu o veredito: “Histeria”. Meu fazia parte do grupo. E contava que o médico mandou abrir todas as janelas do aposento e ligar o rádio, dando tapas no rosto da enferma em seguida. E a pobre mulher morre, ali,  diante de todos. O médico  entra em pânico, ajoelha-se diante do cadáver, chora e pede perdão para toda a equipe!

O lado clown vinha nas suas brincadeiras. Criava, em meio aos casos, situações patéticas. E gostava de esconder-se repentinamente. Quando o cotidiano e as amarguras não lhe submergiam, brincava com as visibilidades. Era assim que, de repente, no meio do supermercado, ele desaparecia para surgir sorrindo em outro lugar. Eram frestas de poesia que se abriam no prosaico cotidiano.

Levava-me ao cinema e ao circo. As cenas eram deslumbrantes para os meus olhos de menino. No circo do interior, os dois palhaços sentados num banco e a Morte lhes rondando atrás. Um via, apavorava-se, contava para o outro, mas a Morte sumia. Depois voltava a aparecer e assim ia.

Era muito generoso com as pessoas. Devolvia-lhes sempre um elogio. Nesta foto, de dois anos atrás, mostra um pouco do seu olhar terno, irônico.

Depois, sem poder se movimentar, começou a sofrer com essa condição. Um dia desses, ele olhou para mim e disse: “Me deixa morrer”.

E foi que Arnaldo deu uma última volta no bairro, levado na sua cadeira de rodas, para depois tomar um banho, deitar-se e morrer logo em seguida, dormindo.

Desapareceu numa curva da vida. Como nos seus jogos, só que, agora, é definitivo.

Por Luiz Carlos Garrocho

Artista cênico/performativo, filósofo, pesquisador e professor.

8 respostas em “Travessia de Arnaldo”

Garrocho,
Que lindo seu texto…saudade de apertar o peito, que foto mais linda tambem…ficamos aqui vendo que Arthur tem mesmo um jeito de olhar e os cabelos dele…espero que possa herdar, e sei que já é mesmo assim, os casos e histórias de Arnaldo!
Beijo!

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Meus sentimentos, caro Luiz Carlos. Que a presença dele, durante o teu tempo de vida, tenha sido suficiente para abastecer-te de luz, esperança e arte pelos anos que ainda te restam. Afinal, é só disso que precisamos, não é mesmo?

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Luiz não tenho como elogiar, só informo que chorei…beleza em cada minúcia descrita e subentendida, pensei em meu pai olhando nos olhos do teu. Pêsames sinceros e mais uma vez , obrigada.

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É, primo. É essa imagem que sempre tive dele. Lutador, ético, generoso entre tantas outras qualidades. Já deixa saudade., com certeza.

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Luiz Carlos, belíssima homenagem

Eu, neto mais velho de Arnaldo Garrocho, peço, por instantes, a palavra.
Lembrei-me de uma música chamada “Amigo é pra essas coisas” (Sílvio Silva e Aldir Blanc)
Termina assim: “Na morte a gente esquece”.
Sim, quando morremos, esquecemos as mágoas, os sofrimentos, deixamo-los aqui, “embaixo”, “no mundo”, e descansamos em paz.
Mas “A morte a gente nunca esquece”, principalmente a de um ente querido.
Queria que o tempo não existisse, assim, nunca nos separaríamos de quem amamos.
Mais do que o último de meus avós, perdi um amigo, o amigo Arnaldo.
Por outro lado, é até bom que o tempo exista, porque em breve nos encontraremos novamente.

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