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Niilismo em Nietzsche, por Gérard Lebrun

Imagem: LCG

“Hoje não é mais possível reinventar o ‘mundo-verdadeiro’ tal como ele teve vigência, quanto mais não fosse porque não conseguiríamos disfarçar por muito tempo o fato de que, precisamente, ele estaria sendo re-inventado – e por isso a instauração ou restauração de um Saber Absoluto só pode ser um logro. Mas a que se deve que os filósofos consigam conservar, com tanta obstinação, sua nostalgia do ‘mundo verdadeiro’? É esta, para Nietzsche, uma das numerosas forms do que ele chama de ‘niilismo incompleto’, isto é, uma forma dentre outras de fugir da ideia de que todo sentido pode ser, simplesmente, produto de uma avaliação, de uma criação. Esta ideia, sacrílega por excelência, tem de permanecer impensável – e todas as formas do ‘niilismo incompleto’ não passam de tentativas para a evitar. Até o mais fanfarrão dos niilistas prefere se resignar à constatação de uma falta de sentido; prefere proclamar que verdade não há, deixando assim implicitamente intacto o ideal de ‘verdade’ – esse ideal ao qual o racionalismo quer dar um conteúdo. Mas, entre um e outro, a diferença será tão grande? Na verdade, é niilista – ‘niilista incompleto’, é verdade, e não ‘niilista forte’ – quem ainda não põe em questão o ideal de ‘verdade’. Quem ainda se recusa a denunciar como impostura a ideia de existir um horizonte de sentido prévio a qualquer avaliação. Quem ainda não recusa o princípio mesmo de um Logos não criado que possa proporcionar abrigo e proteção aos homens.”

Gérard Lebran, in O Avesso da dialética: Hegel à luz de Nietzsche. Tradução de Renato Janine Ribeiro. São Paulo: Companhia das Letras, 1988, p.143-144

 

Singularizações do social mediante o sensível

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O acontecimento se dá no encontro. Nos casos que relato a seguir, estou dizendo de um corpo (o meu) que se depara com outro corpo ou corpos na singularidade de uma situação. Uma cena que emerge desse lugar.  Não é um tipo de uma ocorrência, diz Deleuze sobre o acontecimento. É uma síntese disjuntiva mundo-linguagem.

Interesso-me pelos signos sensíveis do cotidiano – que têm sido parte de iluminações avulsas, epifanias do momento, engendradores de acontecimentos.

No caso, quero falar de algumas ocasiões em que sou tomado pela percepção de uma singularização do social,  a partir do acontecimento proporcionado pelos signos sensíveis do cotidiano. Um agenciamentos que se inscrevem nos corpos num dado momento e que revelam mudanças na esfera econômica principalmente.

Talvez você possa considerar estranho ou mesmo difícil que a imediaticidade do acontecimento, no âmbito do sensível, possa diagramar algo de natureza analítica: a compreensão de uma mudança em curso na sociedade. Que os corpos exibem como marcas, em que eles estão comprometidos. A expressão não existe fora dos seus termos – no caso, a imanência concreta da vida cotidiana. Continue lendo Singularizações do social mediante o sensível

Cozinhar é um ato revolucionário

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Cartaz produzido pelo Poro

 

O Poro – uma dupla de artistas formada por Brígida Campbell e Marcelo Terça-Nada – vem produzindo, além das intervenções urbanas e outras ações efêmeras, cartazes como este para distribuição gratuita.

O tema cozinhar é um ato revolucionário é um dos temas mais belos – não só pelo cartaz, mas também pelo ato em si. Você se cuida, valoriza cada momento, desenvolve estratégias vitalizantes, torna-se mais solidário. E não se esqueça de lavar as louças e deixar a pia limpa – senão, não é nada revolucionário.

Aprendi a cozinhar por volta dos 18 anos de idade, quando aderi à alimentação natural e macrobiótica. No começo, na minha casa, um rapaz disputar o fogão era quase um absurdo. Depois foi se tornando corriqueiro, até aceitável.

No meio do caminho, perdi esse vínculo com o ato de cozinhar. Em parte isso se deu porque adotei a alimentação crudívera. Que tem dicas muitos interessantes – principalmente sobre os brotos. Mas não é suficiente, pois o nosso cérebro  se desenvolveu quando passamos a utilizar os alimentos cozidos. A energia gasta na digestão dos alimentos crus foi utilizada para outros fins. Também está relacionado ao convívio – ao ato de cozinhar e comer juntos, segundo alguns estudos antropológicos.

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Gestos e jeitos de corpo

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Vou lhe contar uma história. Sobre o que chamo de gesto e jeito de corpo.

Foi num dia em que eu estava muito triste e preocupado. Um pardal depenado, se ajeitando no fio quase desencapado de uma pauta de monotonia. Pois que me faltavam horizontes. Não sabia como iria sobreviver.

A rua quase deserta de uma tarde de sábado, de um bairro distante dos que eu costumava passar e morar. O ônibus demorava muito. E eu ali, sozinho e acabrunhado. Foi então que apareceu um jovem. E que de mim se aproximou com cautela. Parecia que ele tentava decifrar um enigma.

– Cara, eu te conheço!

– Me conhece? De onde?

– Eu trabalhava como carregador de caixas num supermercado. Você era meu herói.

– Como assim?

– Você entrava no supermercado meio correndo, meio dançando, sempre alegre, sem camisa, peito nu… Com uma calça vermelha, cabelos enormes. E sumia logo, para voltar do mesmo jeito outro dia.

– Ah…

– Eu te admirava muito. Aquilo era muito diferente de tudo. Eu queria ser assim, como você.

– (…)

– Mas você mudou. Nem te reconheci. Você não é mais aquele cara…

– (…)

Olhei para mim. Ou tentei olhar. Minha camisa polo desgastada, meus cabelos cortados… Era isso? Não, não era só isso. Meu corpo estava cansado, apesar de ainda um pouco jovem. Cansado de não ver mais o adiante. Pois que o perto era aperto e nó na garganta. Não era só uma questão de plumagens. Era muito mais de armas que me faltavam. Falo das minhas artes: do gesto e do jeito de corpo.

O ônibus veio. Despedi do rapaz. E quando ia subindo ele gritou de lá:

– Já sei! Você não mudou não! Você está camuflado!

Sacudi de leve a fuligem das minhas tristezas. O ônibus me embalava e eu não tinha ideia do que me seria.

Outros gestos e outros jeitos de corpo viriam, horizontes reinventados. É necessário saquear alegrias, tomando-as em meio aos escombros e aos ossos do dia a dia.

 

Deleuze: do uso intensivo e do uso extensivo da linguagem

 

Num artigo intitulado O agramatical: os procedimentos da diferença, Júlia Maria Costa de Almeida explora relações entre pesquisa filosófica e experimentação literária na filosofia da diferença em Gilles Deleuze.  A seguir, alguns trechos que selecionei, recomendando antes a leitura do texto completo. Aliás, ele faz parte do livro A diferença, organizado por Luis B. L. Orlandi, publicado pela Editora Unicamp.

Os trechos que aqui apresento, incidem sobre esse caráter agramatical da literatura contemporânea, especialmente sobre os conceitos de tensores em Deleuze. Nessa parte, a autora aborda a distinção entre o uso intensivo da linguagem em contraste com o uso extensivo ou representativo. Esse artigo de Júlia Maria Costa de Almeida explora com clareza tais usos, de modo a liberar a potência criadora da linguagem. O tema rebate, ao meu ver, em nossas interpretações do mundo, tão presas que estão a esses usos representativos da linguagem.

“Deleuze e Guattari fazem notar, em Kafka – por uma literatura menor (1977), que o uso extensivo compensaria a desterritorialização primitiva da língua, isto é, o fato de que, para surgir, a língua implica uma desterritorialização, da boca de sua função alimentar primeira, por uma reterritorialização sobre o sentido. Aquele som desterritorializado, ou sem território próprio, se torna o instrumento do sentido e, como tal, cumpre uma função designativa (designa coisas ou estados de coisas) ou figurativas (quando se aplica a casos especiais, como na metáfora). Esse uso extensivo dominaria as operações de criação de símbolos, de imagens e de sentidos ocultos. O uso intensivo, ao contrário, leva adiante a desterritorialização primitiva da língua, levando a matéria fônica a atravessar um continuum de estados e de variações, restando apenas um mínimo de sentido a conduzir o devir das palavras. No uso extensivo, uma palavra como ‘cão’ designaria um animal (algo que se comporta como um cão). No uso intensivo, as palavras são levadas a experimentar um devir-cão: ladram, rangem, vibram em intensidades, fazendo nascer um cão linguístico, que não é uma coisa designada nem uma imagem figurada, mas uma intensidade-cão cavadas nas palavras, pela neutralização dos processos de sentido, pela criação de um continuum, isto é, pela instauração de um processo de variação contínua, tal como em Kafka e o continuum intenso dos devires-animais. Estaríamos no plano de ação dos tensores operadores de tensão na língua.”   Continue lendo Deleuze: do uso intensivo e do uso extensivo da linguagem