Arquivo da categoria: Geral

As linhas intensivas de um corpo em situação de rua

Imagem: Daniel R. Blume/Creative Commons

 

Ainda não são nove horas da manhã, na Praça Rui Barbosa (Praça da Estação), em Belo Horizonte. Imerso na questão das linhas de composição. Há sim um tema subjacente a esse olhar: as linhas e os traçados de composição. Estou indo para uma reunião num projeto de uma Escola Livre de Artes. 

A poiesis dos corpos imersos no cotidiano – fora do campo da intencionalidade artística – é o que vem  me ocupando. Para pensar o movimento e o que pode ser uma cena. Par pensar o corpo e suas potências. Nesses momentos, a cidade é um terreno fértil de pesquisa. O olhar típico do voyeur, tão afamado nas teorizações sobre a cena, não é esse o plano que produz a consistência dessa busca,  mas sim  um estado meditativo, no qual o observador se observa também no ato de observar.  Continue lendo As linhas intensivas de um corpo em situação de rua

O homem sem cavalo

Imagem: Ivan Gabovich

Iluminações avulsas são presentes do instante, frestas que se abrem no repente. Você não as produz, tampouco as controla. Mas pode praticar modalidades de escuta na imanência – naquilo que emerge no campo de uma percepção flutuante.

Os possíveis entre cotidiano e poiesis que desabrocham ou irrompem nos espaços-tempos de uma experiência do entre.  As vezes são suspensões que, antes de nos retirar do mundo, nos permitem adentrá-lo mais ainda – a ponto de abismar nos sentidos. Tais iluminações avulsas – porque não presas a nenhum critério de oposição entre sagrado e profano ou que ainda perfazem totalidades – me trazem cortes e conexões com os processos de criação-composição. Ao modo das conjunções disjuntivas – para pensar com Deleuze.

Que  se instalem, portanto. E que se possa  se saiba cultiva-las.

Trago aqui o encontro que testemunhei: o de um menino com um andarilho da cidade – do diálogo curto que se estabeleceu. Encontro de gigantes, acredite. Um acontecimento – aquilo que se passa entre mundo e linguagem. Que não se deixa apreender pelo regime de significação – não que não produzem sentido. Mas porque há sempre aquela sensação de que já é demasiadamente tarde – mesmo que seja um segundo. Pois que se tenta, pelos hábitos sensório-motores e pelas conexões de significação, totalizar  o acontecimento quando ele, pelo reverso, já escapou.         Continue lendo O homem sem cavalo

A máquina capitalista em Deleuze e Guattari, por Lapoujade

Imagem: capa do livro: n-1 edições

“O capitalismo não nasce da dispersão dos fluxos mas, pelo contrário, de sua conjunção. Sob sua forma elementar, o capitalismo só surge com o encontro de dois fluxos independentes: ‘de um lado, o trabalhador desterritorializado, devindo trabalhador livre e nu, tendo para vender sua força de trabalho; do outro, o dinheiro descodificado, devindo capital e capaz de compra-la'(1).

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Dentro do ônibus: o povo de algum lugar

Sexta-feira antes do entardecer, o clima um pouco suave devido às chuvas que parecem ter caído em algum lugar,  com a luz solar inundando a paisagem. Mais uma vez tomo um ônibus diametral, em Belo Horizonte – desses que atendem à região metropolitana. Não estava indo a algum bairro distante ou cidade, mas sim aproveitando essa viação que passa na rua onde moro, quando pretendia ir ao baixo centro da cidade.  Mais precisamente, querendo descer na Praça da Estação. Continue lendo Dentro do ônibus: o povo de algum lugar

Niilismo em Nietzsche, por Gérard Lebrun

Imagem: LCG

“Hoje não é mais possível reinventar o ‘mundo-verdadeiro’ tal como ele teve vigência, quanto mais não fosse porque não conseguiríamos disfarçar por muito tempo o fato de que, precisamente, ele estaria sendo re-inventado – e por isso a instauração ou restauração de um Saber Absoluto só pode ser um logro. Mas a que se deve que os filósofos consigam conservar, com tanta obstinação, sua nostalgia do ‘mundo verdadeiro’? É esta, para Nietzsche, uma das numerosas forms do que ele chama de ‘niilismo incompleto’, isto é, uma forma dentre outras de fugir da ideia de que todo sentido pode ser, simplesmente, produto de uma avaliação, de uma criação. Esta ideia, sacrílega por excelência, tem de permanecer impensável – e todas as formas do ‘niilismo incompleto’ não passam de tentativas para a evitar. Até o mais fanfarrão dos niilistas prefere se resignar à constatação de uma falta de sentido; prefere proclamar que verdade não há, deixando assim implicitamente intacto o ideal de ‘verdade’ – esse ideal ao qual o racionalismo quer dar um conteúdo. Mas, entre um e outro, a diferença será tão grande? Na verdade, é niilista – ‘niilista incompleto’, é verdade, e não ‘niilista forte’ – quem ainda não põe em questão o ideal de ‘verdade’. Quem ainda se recusa a denunciar como impostura a ideia de existir um horizonte de sentido prévio a qualquer avaliação. Quem ainda não recusa o princípio mesmo de um Logos não criado que possa proporcionar abrigo e proteção aos homens.”

Gérard Lebran, in O Avesso da dialética: Hegel à luz de Nietzsche. Tradução de Renato Janine Ribeiro. São Paulo: Companhia das Letras, 1988, p.143-144