Arquivo da categoria: Geral

O homem sem cavalo

Imagem: Ivan Gabovich

Iluminações avulsas são presentes do instante, frestas que se abrem no repente. Você não as produz, tampouco as controla. Mas pode praticar modalidades de escuta na imanência – naquilo que emerge no campo de uma percepção flutuante.

Os possíveis entre cotidiano e poiesis que desabrocham ou irrompem nos espaços-tempos do que surge na experiência do entre.  As vezes são suspensões que, antes de nos retirar do mundo, nos permitem adentrá-lo mais ainda – a ponto de abismar nos sentidos. Tais iluminações avulsas – porque não presas a nenhum critério de oposição entre sagrado e profano ou que ainda perfazem totalidades – me trazem cortes e conexões com os processos de criação-composição. Ao modo das conjunções disjuntivas – para pensar com Deleuze.

Que  se instalem, portanto. E que se possa  se saiba cultiva-las.

Trago aqui o encontro que testemunhei: o de um menino com um andarilho da cidade – do diálogo curto que se estabeleceu. Encontro de gigantes, acredite. Um acontecimento – aquilo que se passa entre mundo e linguagem. Que não se deixa apreender pelo regime de significação – não que não produzem sentido. Mas porque há sempre aquela sensação de que já é demasiadamente tarde – mesmo que seja um segundo. Pois que se tenta, pelos hábitos sensório-motores e pelas conexões de significação, totalizar  o acontecimento quando ele, pelo reverso, já escapou.         Continue lendo O homem sem cavalo

A máquina capitalista em Deleuze e Guattari, por Lapoujade

Imagem: capa do livro: n-1 edições

“O capitalismo não nasce da dispersão dos fluxos mas, pelo contrário, de sua conjunção. Sob sua forma elementar, o capitalismo só surge com o encontro de dois fluxos independentes: ‘de um lado, o trabalhador desterritorializado, devindo trabalhador livre e nu, tendo para vender sua força de trabalho; do outro, o dinheiro descodificado, devindo capital e capaz de compra-la'(1).

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Dentro do ônibus: o povo de algum lugar

Sexta-feira antes do entardecer, o clima um pouco suave devido às chuvas que parecem ter caído em algum lugar,  com a luz solar inundando a paisagem. Mais uma vez tomo um ônibus diametral, em Belo Horizonte – desses que atendem à região metropolitana. Não estava indo a algum bairro distante ou cidade, mas sim aproveitando essa viação que passa na rua onde moro, quando pretendia ir ao baixo centro da cidade.  Mais precisamente, querendo descer na Praça da Estação. Continue lendo Dentro do ônibus: o povo de algum lugar

Niilismo em Nietzsche, por Gérard Lebrun

Imagem: LCG

“Hoje não é mais possível reinventar o ‘mundo-verdadeiro’ tal como ele teve vigência, quanto mais não fosse porque não conseguiríamos disfarçar por muito tempo o fato de que, precisamente, ele estaria sendo re-inventado – e por isso a instauração ou restauração de um Saber Absoluto só pode ser um logro. Mas a que se deve que os filósofos consigam conservar, com tanta obstinação, sua nostalgia do ‘mundo verdadeiro’? É esta, para Nietzsche, uma das numerosas forms do que ele chama de ‘niilismo incompleto’, isto é, uma forma dentre outras de fugir da ideia de que todo sentido pode ser, simplesmente, produto de uma avaliação, de uma criação. Esta ideia, sacrílega por excelência, tem de permanecer impensável – e todas as formas do ‘niilismo incompleto’ não passam de tentativas para a evitar. Até o mais fanfarrão dos niilistas prefere se resignar à constatação de uma falta de sentido; prefere proclamar que verdade não há, deixando assim implicitamente intacto o ideal de ‘verdade’ – esse ideal ao qual o racionalismo quer dar um conteúdo. Mas, entre um e outro, a diferença será tão grande? Na verdade, é niilista – ‘niilista incompleto’, é verdade, e não ‘niilista forte’ – quem ainda não põe em questão o ideal de ‘verdade’. Quem ainda se recusa a denunciar como impostura a ideia de existir um horizonte de sentido prévio a qualquer avaliação. Quem ainda não recusa o princípio mesmo de um Logos não criado que possa proporcionar abrigo e proteção aos homens.”

Gérard Lebran, in O Avesso da dialética: Hegel à luz de Nietzsche. Tradução de Renato Janine Ribeiro. São Paulo: Companhia das Letras, 1988, p.143-144

 

Singularizações do social mediante o sensível

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O acontecimento se dá no encontro. Nos casos que relato a seguir, estou dizendo de um corpo (o meu) que se depara com outro corpo ou corpos na singularidade de uma situação. Uma cena que emerge desse lugar.  Não é um tipo de uma ocorrência, diz Deleuze sobre o acontecimento. É uma síntese disjuntiva mundo-linguagem.

Interesso-me pelos signos sensíveis do cotidiano – que têm sido parte de iluminações avulsas, epifanias do momento, engendradores de acontecimentos.

No caso, quero falar de algumas ocasiões em que sou tomado pela percepção de uma singularização do social,  a partir do acontecimento proporcionado pelos signos sensíveis do cotidiano. Um agenciamentos que se inscrevem nos corpos num dado momento e que revelam mudanças na esfera econômica principalmente.

Talvez você possa considerar estranho ou mesmo difícil que a imediaticidade do acontecimento, no âmbito do sensível, possa diagramar algo de natureza analítica: a compreensão de uma mudança em curso na sociedade. Que os corpos exibem como marcas, em que eles estão comprometidos. A expressão não existe fora dos seus termos – no caso, a imanência concreta da vida cotidiana. Continue lendo Singularizações do social mediante o sensível