Arquivo da categoria: Filosofia

Deleuze: fragmento e totalidade

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“Quando uma parte vale por si própria, quando um fragmento fala por si mesmo, quando um signo se eleva, pode ser de duas maneiras muito diferentes: ou porque permite adivinhar o todo de onde foi extraído, reconstituir o organismo ou a estátua a que pertence e procurar a outra parte que se lhe adapta, ou, ao contrário, porque não há outra parte que lhe corresponda, nenhuma totalidade a que possa pertencer, nenhuma unidade de onde tenha sido arrancado e à qual possa ser devolvido.”

Gilles Deleuze – Proust e os signos

 

Trabalho precário. Por Akseli Virtanen

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“Normalmente entendemos por trabalho precário uma situação de trabalho onde nenhuma norma estável pode ser determinada em relação ao vínculo empregatício, à remuneração e ao horário de trabalho. Entretanto, o essencial da precarização não é a falta de normas relativas à relação de emprego – normas consideradas centrais no modelo fordista-keynesiano, que afinal só foram aplicadas durante um breve período, na metade do século XX -, mas a diminuição da relevância do trabalho atrelado a um determinado lugar, tempo e desempenho na produção do valor econômico. O trabalho se desprendeu de lugares, tempos e conteúdos específicos e se transformou numa categoria abstrata. Contudo, esta abstração do trabalho e do nosso compromisso pra com ele é algo real e concreto: ‘trabalho abstrato’ tronou-se uma categoria empírica, diferencial(*). A experiência da abstração do trabalho (o deslocamento em relação à sua concretude) se expressa, por exemplo, na perda de confiança em relação à permanência no emprego ou mesmo com relação à estabilidade em nossas profissões e áreas de trabalho, e temos que nos mover de tarefa em tarefa, de projeto em projeto. Lugares e tempos de trabalhos variam, e mais importante do que apreender algo ligado a um conteúdo específico é hoje ‘aprender a aprender’. Assim, como em qualquer empresa, preciso acompanhar o que acontece à minha volta ao mesmo tempo em que devo evitar uma relação excessiva ou profunda com as coisas que faço ou as pessoas que encontro. O compromisso é um risco, e pode levar ao fracasso pessoal quando as opções precisam ser deixadas em aberto em meio à multiplicidade de possibilidades imprevisíveis. De maneira que é preciso, cinicamente, não ter interesse em nada, sendo mais prudente manter-se um pouco distante e entediado.”

Akseli, Virtanen. O discreto charme do precariado, posfácio a Máquina Kafka – GUATTARI, Félix. Seleção e notas de Stéphane Nadaud. Tradução e prefácio de Peter Pál Pelbart. n-1 edições, São Paulo, 2011.

(*) Para o conceito de ‘real abstrato’ cf. Akseli Vitanen, “Arbitrary Power, or on Organization without Ends” (conferência). Ephemera. Theory & Politcs in organization, 209. The Swedish Dance History, Inpex, Stockholm, 2010.

Crédito da imagem: http://vk.com/alp_rzn

 

Edições N-1 começa com Kuniichi Uno e Félix Guattari

“O livro como imagem do mundo é de toda maneira uma ideia insípida. Na verdade não basta dizer Viva o múltiplo, grito de resto difícil de emitir. Nenhuma habilidade tipográfica, lexical ou mesmo sintática será suficiente para fazê-lo ouvir. É preciso fazer o múltiplo, não acrescentando sempre uma dimensão superior, mas, ao contrário, da maneira simples, com força de sobriedade, no nível das dimensões de que se dispõe, sempre n-1 (é somente assim que o uno faz parte do múltiplo, estando sempre subtraído dele). Subtrair o único da multiplicidade a ser constituída; escrever a n-1. ” Gilles Deleuze e Félix Guattari

Com essa citação nas páginas internas de um dos livros, o filósofo e ensaísta Peter Pál Pelbart lança no Brasil  as Edições N-1, que fazem parte do projeto Future Art Base, sediada em Helsinki (Finlândia). Uma plataforma de “pesquisas e desenvolvimento sobre o futuro da arte – a arte de reabrir os possíveis” – como citado no site.  Continue lendo Edições N-1 começa com Kuniichi Uno e Félix Guattari

O teatro e os regimes de significação

 

Imagem: Worms in process

 

Quando se discutem os processos de subjetivação política, a metáfora do teatro ganha contornos e usos. Aspectos como representação (política, social etc.) e comunicação, assim como a definição do espaço público, são alguns dos elementos invocados. E a contrapartida também deve ser considerada: o exercício cênico como campo propício à experiência de subjetivação política. Não porque o teatro necessita ser político, mas porque ele, como toda ação artística, é político como tal.
No caso específico da encenação teatral, a construção de uma forma sensível do coletivo é uma das características marcantes. E isso pode ser visto no fato de arregimentar e realizar o embate de forças e funções (as regras sob as quais se organizam, os planos hierárquicos ou horizontais das cooperações), na definição da ocupação e reconfiguração do lugar (mise-en-scène, espaço social, arquiteturas e agenciamentos maquínicos de expressão) e do relacionamento entre criadores e público.
Ocorre que a definição do espaço público – do que expressivamente se torna algo público – tem sido justamente devedor dessa metáfora teatral, entendida de modo hegemônico como representação e comunicação.
Venho insistindo que tais formulações não definem uma essência do teatro. Antes disso, elas fazem parte de um processo de subjetivação política do qual essas visões tornam-se máquinas de expressão.
Outro dia, conversava com um amigo e artista, que muito admiro, sobre a noção de “comunicação teatral”. Expressão muito utilizada para dizer do relacionamento entre criadores e público. Ele me perguntou se eu não gostava do termo e simplesmente queria substituir por outro. Se não era uma espécie de birra com a palavra. Invoquei Gilles Deleuze: já temos comunicação demais, é necessário criar ilhas de não comunicação!
A comunicação, segundo Deleuze, é o que tem dominado. E a arte é o que pode resistir a isso. Continuamos a conversa e chegamos, juntos a um lugar de desejo: os espaços e os tempos de um compartilhamento. Tomamos a asserção de Grotowski: atuar diante de alguém e não para alguém. Mas isso é somente uma operação nominal? De modo algum, o pensamento prolonga-se em movimento – e vice-versa. O que eu queria, também, era demover este parceiro de tantas inquietações, desse buraco chamado “significação teatral”. Não queria, então, buscar a verdade última, que essa é outra armadilha, mas sim trazer o parceiro para as potências assignificantes. Que a meu ver, já se encontram no seu próprio trabalho. É puro combate.
Pois então, não se quer com isso dizer que encontramos uma expressão mais aprimorada, no sentido de uma correção etc. Adoto, antes, o viés de um perspectivismo (Nietzsche), no qual o sentido de uma coisa (fenômeno, processo, atividade) está nas forças que ocupam essa coisa e nela se expressam. Assim, representação e comunicação não são conceitos e usos superados. Ao contrário, fazem parte de muitas práticas. São recursos ou instrumentos das máquinas de expressão, que chamamos de teatros, que singularizam certas experiências. Nem piores nem melhores. Porém, não deixemos de registrar: tentam sempre se passar por totalizantes e universais!
A representação e a comunicação são meios estruturantes de uma experiência do teatro como regime significante. E é isso, precisamente, que proponho discutir, procurando mostrar que há experiências que prezam não a significação, mas o sentido. E que passam, por sua vez, por cortes compositivos de a-significação.
Vem a calhar, a esse respeito, um texto de Maurizio Lazzarato, intitulado (O pluralismo semiótico e o novo governo dos signos – homenagem a Félix Guattari – vide, Referências). O autor nos coloca diante de dois regimes de signos: o regime significante e o regime assignificante. E mostra como a metáfora dominante de teatro tem se associado ao regime significante.
Lazzarato distingue, a partir de Guattari, entre servidão social e servidão maquínica. A servidão social é uma modalidade de subjugação e de individuação (identidade, sexo, profissão, nacionalidade etc.) na qual o mundo é apreendido no que Lazzarato chama de “armadilha significante e representativa”. Nela, as multiplicidades e heterogeneidade, assim como toda a vida pré-significante (a infância, o corpo etc.) é capturada pelas semióticas significantes. Os sistemas capitalistas fordistas, assim como o sistema stalinista, baseiam-se nessa sujeição dos processos assignificantes pelos regimes significantes. Lazzarato, aqui, traça paralelos com a noção de sujeição social em Guattari e as sociedades disciplinarias de Foucault. Entretanto, ocorre que o sistema capitalista, segundo Guattari, tem operado cada vez através das semióticas assignificantes. Pois, como mostra Lazzarato:

“O registro maquínico da produção semiótica do capital funciona sobe a base de semióticas assignificantes, que se orientam diretamente ao corpo (os afetos, os desejos, as emoções e as percepções) mediante signos que, em lugar de produzir uma significação, desencadeiam uma ação, uma reação, um comportamento, uma atitude, uma postura. Estas semióticas não significam nada; antes disso, colocam em movimento, ativam.”
Porém, a noção de esfera pública é devedora, em alguns filósofos, da metáfora do teatro como lugar de representação e, mais do que tudo, de significação.

Diz Lazzarato:

“As teorias que fazem da palavra e da linguagem as formas mais importantes ou exclusivas de expressão política (Arendt, Rancière, Virno) parecem ignorar todo o resto das semióticas assignificantes. Isso se deve a que o espaço público no qual se desenvolve o processo de subjetivação (Rancière) ou de individuação (Virno) se concebe como uma cena teatral onde os sujeitos políticos se constituem em sua dimensão molar e representativa, imitando a atuação de um artista ou de um orador diante de um público. A metáfora teatral me parece particularmente prejudicial para apreender o espaço político contemporâneo (Walter Benjamin: ‘essa nova técnica esvazia tanto os parlamentos quanto os teatros’).”

“O processo de subjetivação ou de individuação se vê então mutilado, já que na realidade as semióticas e as máquinas assignificantes redesenham e reconfiguram o espaço público e suas modalidades de expressão, afetando direta e profundamente a ‘palavra política’. Esta já não pode ser descrita mediante o funcionamento do poder de ação da linguagem tal como se exercia na ‘polis’ grega, que é o que, seguindo Hannah Arendt, fazem tais teorias. No espaço público contemporâneo a produção da palavra se organiza ‘industrialmente’ antes que ‘teatralmente’. O processo de subjetivação ou de individuação já não pode se reduzir à sujeição social, deixando completamente em suspenso a servidão maquínica. Paradoxalmente, todas essas teorias políticas e linguísticas contemporâneas que fazem direta ou indiretamente referência à polis e/ou ao teatro nos colocam numa situação pré-capitalista.”

Voltemos ao teatro. O nosso problema torna-se mais intrincado e, de fato, implicado. Porém, em vez de abordá-lo como um processo ideológico, passaríamos a vê-lo, na visada perspectivista e diagramática, procurando ver que forças e linhas (segmentadas, flutuantes ou de fuga) tomam posse dele e nele se expressam. Pois, como diz Deleuze a partir de Nietzsche, não é que exista uma coisa neutra, objetiva, que será apoderada por forças. A coisa é as forças que nela se exprimem.
Poderia contrapor à essa visão de teatro, na qual um emissor dirige-se a um público, uma noção outra, entendida, por exemplo, a partir do que Lazzarato chama de semióticas corporais, que ele reivindica para a dança. E também as visões de Deleuze sobre um teatro como experiência da diferença e de embate de dinamismos e forças, de máscaras anteriores às personas. Portanto, uma cena de potências assignificantes.
Entretanto, a experiência da cena – para ampliar mais o foco do problema e não se restringir a um possível núcleo duro e substancial chamado “teatro” – não está numa apreensão idealista ou pura. Invocamos sim, como no caso de Deleuze e, nessa visão de Guattari trazida por Lazzarato, uma apreensão de forças que podem molecularizar os encontros e os espaços de compartilhamento.
Diria, então, que caberia ver o que se passa em cada momento, em cada configuração de forças. Onde estão as potências de liberação, de não-fechamento e, por onde se dão também as capturas e modelizações do desejo. Para continuar a conversa, que é infinita, recomendo a leitura do texto de Lazzarato: o link encontra-se a seguir, em Referências.
Referências –
– LAZZARATO, Maurizio. El ‘pluaralismo semiótico’ y el nuevo gobierno de los signos. Homenaje a Félix Guattari. Traducción de Marcelo Expósito, revisada por Joaquín Barriendos

Gilles Deleuze: A de animal

Do Abedecedário de Gilles Deleuze, em entrevistas conduzidas por Claire Parnet: a  letra A de Animal, em três partes. A fala de Deleuze é magnífica. Ele produz, como é característico de sua filosofia, um conceito em devir. Assim, ele fala do animal e também, devido à provocação de Parnet, do escritor. Deleuze admira essa redução que o animal produz, ao selecionar aquilo que o afecta. É isso o que “faz um mundo”, diz Deleuze.

O animal constrói um território. E “construir um território para mim é quase o nascimento da arte”. Mas o território “só vale em relação a um movimento através do qual se sai dele”. Então, Deleuze fala da desterritorialização, um conceito criado por ele e por Guattari. Continue lendo Gilles Deleuze: A de animal