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Intervenções e ações efêmeras: documentário do Poro

O Poro acaba de publicar o seu documentário: Intervenções e Ações Efêmeras. Brígida Campbell e Marcelo Terça-Nada, a dupla de artistas que realizam as intervenções urbanas contam um pouco sobre a história da parceria e apresentam algumas das ações realizadas. Ficamos sabendo, por exemplo, como se dá a recepção dessas criações na cidade.

O caráter efêmero e sua precariedade no tempo é assumida pelos dois artistas/ativistas. Mas você vê também como eles lidam com o registro, fazendo com que as ações reverberem noutros planos. Ou que passem a existir noutras conexões. O registro multiplicaria, segundo Brígida, a experiência do trabalho. A que Marcelo acrescenta: num outro circuito. Então, muitas questões sobre arte contemporânea para nosso desfrute e pesquisa. Aliás, você encontra no site do Poro, entre outras preciosidades, uma coletânea de textos de autores como Oiticica, Cido Meireles, o Manifesto Situacionista e outros intercessores.

Você poderá ver porque em nossa época muitos artistas buscam outros circuitos de exibição. Um conceito expandido de arte, no qual se coloca em questão o que pode ser uma obra de arte, quem pode fazer arte e em que lugares e contextos pode se dar uma recepção da obra de arte.

E aqui vai o link para baixar o vídeo diretamente, em alta definição, que pode ser exibido livremente segundos os autores e editores: www.poro.redezero.org/video/documentario

O vídeo é uma produção Rede Jovem de Cidadania em parceria com o Poro. Realização: Associação Imagem Comunitária.

De Fast para Slow Food

Quando entro num fast food e a pessoa me diz que o pedido ficará pronto em 2 minutos, eu entro em pânico. Primeiro, porque aqueles rapazes e moças ficam correndo para um lado e para o outro numa dança infernal, sem sentido. Depois, porque uma comida desse tipo deve ser muito esquisita. Passei, então, a evitar esses lugares, não só por questão da comida mesma, mas por uma recusa ideológica do tipo de trabalho, no mínimo estressante, a que as pessoas estão sendo submetidas. Uma micro-política deveria, também, dar conta de pensar essa dança esquisita dos fastfoods e as conexões que gera no nosso eco-sistema interno e externo. E, além disso, pensar a estética de um mundo cujos alimentos são produzidos em escala industrial.

Por tudo isso, recebi com alegria, através de mensagem de Marcelo Terça-Nada, a notícia do web-design criado por ele e Cia. para um site superbacana: o Slow Food do Brasil. Há toda uma gama de informações e conexões sobre uma realidade possível, de pequenos produtores, de consumo curtido (expressão que vem de curtir o couro, de sofrer a ação do tempo). Vale a pena conferir o site, com muito conteúdo de sobra, para ser lido e revisto vagarosamente.

O psicanalista Célio Garcia, num seminário sobre Lacan e a Cultura, realizado no Centro de Cultura Belo Horizonte, com curadoria de Cristiane Barreto, dizia que o tempo lento é o tempo dos pobres, numa alusão ao geógrafo Milton Santos. Pedi que ele falasse mais um pouco sobre isso, pois eu estava numa descoberta pessoal, em termos de treimanento e criação corpórea, com o slow motion. Célio me disse que, na época da ditadura militar, ele e muitos outros exilados, trabalhavam na França selando cartas no serviço de Correios. Os ocidentais, dizia Célio, acostumados à escala industrial e hiperprodutiva, realizavam o trabalho com muita pressa, carta após carta. Já os africanos, dizia Célio Garcia, faziam aquilo com uma lentidão impressionante. Não havia motivo para correr. E nenhuma necessidade. Os gestos de Célio imitando os africanos eram fantásticos: passar a cola, passar a mão na carta, deixá-la num monte, para depois cruzar os braços, fazendo uma expressão de pausa que era, na verdade, de uma grande recusa. Somente depois disso, passavam para a outra carta.

Micro-políticas alternam velocidades e lentidões (Deleuze e Guattari) de um modo tático, de acordo com o momento, desobstruindo vias de desejo, evitando confrontos esmagadores, criando zonas de autonomia.