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Gilles Deleuze: A de animal

Do Abedecedário de Gilles Deleuze, em entrevistas conduzidas por Claire Parnet: a  letra A de Animal, em três partes. A fala de Deleuze é magnífica. Ele produz, como é característico de sua filosofia, um conceito em devir. Assim, ele fala do animal e também, devido à provocação de Parnet, do escritor. Deleuze admira essa redução que o animal produz, ao selecionar aquilo que o afecta. É isso o que “faz um mundo”, diz Deleuze.

O animal constrói um território. E “construir um território para mim é quase o nascimento da arte”. Mas o território “só vale em relação a um movimento através do qual se sai dele”. Então, Deleuze fala da desterritorialização, um conceito criado por ele e por Guattari. Continue lendo Gilles Deleuze: A de animal

As linhas desejantes de uma vida fascista: O Conformista, de Bertolucci

 

Rever O Conformista (1970), de Bernardo Bertolucci, depois de tantos anos, foi uma experiência tão fascinante quanto intrigante. A questão que permanece: a análise das motivações para uma pessoa aderir ao fascismo. E mais ainda: o que seria uma existência fascista, afinal?

O fascismo, mais do que uma ideologia específica (contra a democracia, o parlamentarismo e também contra o socialismo, sendo que o indivíduo se conforma ao coletivo, à corporação e ao Estado), é uma atitude existencial-política. É o que mostra Michel Foucault em Introdução à vida não fascista:

“o inimigo maior, o adversário estratégico (…): o fascismo. E não somente o fascismo histórico de Hitler e de Mussolini – que tão bem souberam mobilizar e utilizar o desejo das massas -, mas o fascismo que está em nós todos, que martela nossos espíritos e nossas condutas cotidianas, o fascismo que nos faz amar o poder, desejar esta coisa que nos domina e nos explora.”

Marcello (Jean Louis Tringnant) é um intelectual que procura o seu amigo cego,  ideólogo do Partido, para aderir voluntariamente ao fascismo. Ao mesmo tempo, pretende-se casar. Seu amigo pergunta o motivo  e ele afirma: para ser uma pessoa normal. Uma pessoa que, segundo ele, ao ver o traseiro de uma mulher, olha para trás, admira e segue em frente. A trivialidade de uma vida como a de qualquer um. Marcello quer ser igual e, como todos os iguais, eliminar em si e nos outros toda e qualquer diferença. Continue lendo As linhas desejantes de uma vida fascista: O Conformista, de Bertolucci

Do CrazyHorse 18 ao exercício micropolítico

Imagem vista do CrazyHorse 18, antes de executar jornalistas da Reuters

Um helicóptero Apache dos EUA, intitulado CrazyHorse 18 (Cavalo Doido 18) ataca um comboio de insurgentes no Iraque. Dois homens conseguem sobreviver, correm e se rendem, largando as armas. O helicóptero mantém os homens sob mira, e os tripulantes ligam para a base e pedem orientações. O rádio dá o retorno: “Nosso advogado diz que eles não podem se render para uma aeronave. Ainda são alvos válidos’’. Então, os tripulantes disparam aquela metralhadora que perfura até blindados.

Esta notícia, retirada do FolhaPress (23.10.2010), é parte de um dos inúmeros relatos dos documentos da Guerra do Iraque, revelados pelo site Wikiliaks.org. A denúncia é importante e está colocando o Império em cheque: uma guerra estúpida, levada a cabo pelo presidente Bush e seu comparsa Tony Blair. Porém, quero chamar a atenção para outro aspecto: a forma-função do Estado e sua lógica totalizante e implacável. CrazyHorse18 esteve, antes, envolvido na morte de dois jornalistas nessa guerra, entre outros ataques fatais a civis (veja o link para o vídeo, mostrando o helicóptero abrindo fogo sobre os civis, em Mais Referências). Continue lendo Do CrazyHorse 18 ao exercício micropolítico

Feliz aniversário Gilles Deleuze

Recebi um twitter hoje, assim: NaxosRT @dreamduke: Happy Birthday Gilles Deleuze. Sim, Deleuze nasceu no dia 18 de janeiro de 1925. E morreu no dia 04 de novembro de 1995.

Uma vida que transborda entre uma data e outra. Um dos últimos textos de Deleuze intitula-se, justamente,  Imanência: Uma Vida. O texto é uma preciosidade que sempre retomo. Cito um trechoContinue lendo Feliz aniversário Gilles Deleuze