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Niilismo em Nietzsche, por Gérard Lebrun

Imagem: LCG

“Hoje não é mais possível reinventar o ‘mundo-verdadeiro’ tal como ele teve vigência, quanto mais não fosse porque não conseguiríamos disfarçar por muito tempo o fato de que, precisamente, ele estaria sendo re-inventado – e por isso a instauração ou restauração de um Saber Absoluto só pode ser um logro. Mas a que se deve que os filósofos consigam conservar, com tanta obstinação, sua nostalgia do ‘mundo verdadeiro’? É esta, para Nietzsche, uma das numerosas forms do que ele chama de ‘niilismo incompleto’, isto é, uma forma dentre outras de fugir da ideia de que todo sentido pode ser, simplesmente, produto de uma avaliação, de uma criação. Esta ideia, sacrílega por excelência, tem de permanecer impensável – e todas as formas do ‘niilismo incompleto’ não passam de tentativas para a evitar. Até o mais fanfarrão dos niilistas prefere se resignar à constatação de uma falta de sentido; prefere proclamar que verdade não há, deixando assim implicitamente intacto o ideal de ‘verdade’ – esse ideal ao qual o racionalismo quer dar um conteúdo. Mas, entre um e outro, a diferença será tão grande? Na verdade, é niilista – ‘niilista incompleto’, é verdade, e não ‘niilista forte’ – quem ainda não põe em questão o ideal de ‘verdade’. Quem ainda se recusa a denunciar como impostura a ideia de existir um horizonte de sentido prévio a qualquer avaliação. Quem ainda não recusa o princípio mesmo de um Logos não criado que possa proporcionar abrigo e proteção aos homens.”

Gérard Lebran, in O Avesso da dialética: Hegel à luz de Nietzsche. Tradução de Renato Janine Ribeiro. São Paulo: Companhia das Letras, 1988, p.143-144