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Do CrazyHorse 18 ao exercício micropolítico

Imagem vista do CrazyHorse 18, antes de executar jornalistas da Reuters

Um helicóptero Apache dos EUA, intitulado CrazyHorse 18 (Cavalo Doido 18) ataca um comboio de insurgentes no Iraque. Dois homens conseguem sobreviver, correm e se rendem, largando as armas. O helicóptero mantém os homens sob mira, e os tripulantes ligam para a base e pedem orientações. O rádio dá o retorno: “Nosso advogado diz que eles não podem se render para uma aeronave. Ainda são alvos válidos’’. Então, os tripulantes disparam aquela metralhadora que perfura até blindados.

Esta notícia, retirada do FolhaPress (23.10.2010), é parte de um dos inúmeros relatos dos documentos da Guerra do Iraque, revelados pelo site Wikiliaks.org. A denúncia é importante e está colocando o Império em cheque: uma guerra estúpida, levada a cabo pelo presidente Bush e seu comparsa Tony Blair. Porém, quero chamar a atenção para outro aspecto: a forma-função do Estado e sua lógica totalizante e implacável. CrazyHorse18 esteve, antes, envolvido na morte de dois jornalistas nessa guerra, entre outros ataques fatais a civis (veja o link para o vídeo, mostrando o helicóptero abrindo fogo sobre os civis, em Mais Referências). Continue lendo Do CrazyHorse 18 ao exercício micropolítico

Estética do afecto: trecho de um artigo de Simon O’Sullivan

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Delphine Seyrig (O ano passado em Marienbad/L'année dernière à Marienbad, Alain Resnais, 1961)

“Como poderia acontecer que, no pensamento sobre a arte, na leitura do objeto de arte, nós acabamos por perder  o que a arte tem de  melhor? Na verdade o que perdemos define a arte: a estética, porque a arte não é um objeto entre outros, pelo menos não um objeto de  conhecimento (ou não apenas um objeto de conhecimento).  Pelo contrário, a arte faz outra coisa. Na verdade, a arte é  precisamente a antítese do conhecimento; funciona contra o que Lyotard chamou uma vez de  ‘fantasias de realidade’ (A condição pós-moderna). Isso quer dizer que a arte pode muito bem fazer parte do mundo  (afinal de contas é uma coisa produzida), mas ao mesmo tempo está à parte do  mundo. E este distanciamento, no entanto, é o que constitui a sua importância.

Neste artigo, quero pensar um pouco sobre este  distanciamento, este ‘excesso’  ou ‘ruptura’  que, como observa  Lyotard, constitui a efetividade da arte  para além da sua existência como um objeto cultural. Eu quero afirmar que este excesso não precisa ser teorizado como um transcendente, podemos antes pensar o poder estético da arte num sentido imanente, através do recurso à noção de afecto. Continue lendo Estética do afecto: trecho de um artigo de Simon O’Sullivan

Viroid life: memória e devir

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Imagem: Ground

“O fenômeno da memória é múltiplo: poderia ser chamado de memórias moleculares, memórias sociais, memórias curtas e memórias longas, memórias absolutas e relativas, memórias doentes e memórias saudáveis, de mnemotécnicas e de invenção de uma memória intensiva, e assim por adiante. Em Mil Platôs, Deleuze e Guattari opõem devir e memória na tentativa de construir um modelo de evolução não-genealógico (numa evolução que não seria restrita ao esquema linear pressuposto na árvore da vida). E nessa perspectiva, eles entendem que as memórias moleculares ou minoritárias existem numa integração no sistema molar, ou majoritário (Deleuze e Guattari 1988:294 – páginas da edição inglesa). O fato de Deleuze e Guattari subestimarem o poder criativo e subversivo da memória tem a ver com o modo como esta se associaria às técnicas mnemônicas (ibid.: 295). Nessa perspectiva, a memória funcionaria como uma organização pontual, na qual o presente refere-se simultaneamente a uma linha horizontal que captura o fluxo do tempo, movendo do presente antigo para um presente atual, e a uma linha vertical que captura a ordem do tempo, indo do presente para o passado, ou para a ‘representação’ do presente antigo. Os autores opõem os ‘sistemas multilineares’ aos sistemas pontuais, sendo que os primeiros, que são sistemas complexos e abertos, tão evidentes no trabalho dos músicos e pintores, nos quais temos a liberação da linha, fazendo-a numa diagonal, e não mais numa verticalidade e horizontalidade.

Neste sentido, em que a linha se sobrepõe ao ponto, os autores colocam que todo ato de criação é, em última instância, ‘trans-histórico’: ‘criações’, escrevem, ‘são como linhas abstratas e mutantes que abandonam por si mesmas a tarefa de representar um mundo, precisamente porque elas configuram uma nova realidade que a história pode somente recontar ou recolocar em sistemas pontuais’ (ibid.: 296). Nesse modelo, os devires tomam um lugar na história, mas nunca se reduzem a ela:  ‘Quando isso ocorre [o estancamento da linha] é sempre submetido à História, mas nunca a partir desta (ibid). A História, para Deleuze e Guattari, é uma definição molar. A única história que se faria possível seria a que sempre tem sido e para sempre será – a história do homem (embora se deve notar que os autores preservam os ‘múltiplos devires do homem, mas nenhum devir-homem’). Para eles, as técnicas de memória têm sido cultivadas com o objetivo de servir à molarização da história. Mas, onde a memória fixa codifica, e assinala funções, a atividade dos devires torna-se liberadora por um rebatimento no jogo transversal da comunicação entre fenômenos heterogêneos, de tal modo que eles criam genuinamente o novo e a diferença.

(…)

Encontramos nas colocações de Deleuze sobre a teoria das duas memórias, que aparece tanto em Freud quanto em  Nietzsche (Deleuze 1983:115). A primeira é uma memória específica do homem ressentido, na qual  os traços da memória tornam-se tão indelevelmente marcados na sua consciência que ele já não é capaz de agir (que exige  esquecimento). Não se trata apenas do caso de que sua ação é apenas reação, mas sim que ele é incapaz de agir, pois mesmo fora da reação ele se sente reagindo, tornando interminável (indigerível) o processo. A segunda é uma ‘memória ativa’,  ‘que já não repousa sobre os traços mnemônicos (Deleuze 1983:112-15). Aqui memória já não é simplesmente uma função do passado, uma incapacidade de fluir, transformando-se antes  numa atividade do futuro, uma ‘memória  que é própria do futuro’ (ibid.: 134). Reinterpretar a memória humana, alguém poderia sugerir, envolveria  traçar uma evolução ou transformação daquilo que não pôde entrar na consciência contemporânea, numa busca dos vestígios ‘sígnicos’ do além-do-homem, em que a memória humana nos libertaria de nossas feridas purulentas, do  desprezo e da comiseração que percebemos no rosto da humanidade. “Uma investigação sobre a ‘origem’ é, portanto, sempre uma investigação sobre o devir-futuro e sobre os devires do futuro.”

Ansell Pearson – Viroid life: perspectives on Nietzsche and transhuman condition. Routledge, 1997.

Mais referências –

Viroid life no Google Books