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Edições N-1 começa com Kuniichi Uno e Félix Guattari

“O livro como imagem do mundo é de toda maneira uma ideia insípida. Na verdade não basta dizer Viva o múltiplo, grito de resto difícil de emitir. Nenhuma habilidade tipográfica, lexical ou mesmo sintática será suficiente para fazê-lo ouvir. É preciso fazer o múltiplo, não acrescentando sempre uma dimensão superior, mas, ao contrário, da maneira simples, com força de sobriedade, no nível das dimensões de que se dispõe, sempre n-1 (é somente assim que o uno faz parte do múltiplo, estando sempre subtraído dele). Subtrair o único da multiplicidade a ser constituída; escrever a n-1. ” Gilles Deleuze e Félix Guattari

Com essa citação nas páginas internas de um dos livros, o filósofo e ensaísta Peter Pál Pelbart lança no Brasil  as Edições N-1, que fazem parte do projeto Future Art Base, sediada em Helsinki (Finlândia). Uma plataforma de “pesquisas e desenvolvimento sobre o futuro da arte – a arte de reabrir os possíveis” – como citado no site.  Continue lendo Edições N-1 começa com Kuniichi Uno e Félix Guattari

O teatro e os regimes de significação

 

Imagem: Worms in process

 

Quando se discutem os processos de subjetivação política, a metáfora do teatro ganha contornos e usos. Aspectos como representação (política, social etc.) e comunicação, assim como a definição do espaço público, são alguns dos elementos invocados. E a contrapartida também deve ser considerada: o exercício cênico como campo propício à experiência de subjetivação política. Não porque o teatro necessita ser político, mas porque ele, como toda ação artística, é político como tal.
No caso específico da encenação teatral, a construção de uma forma sensível do coletivo é uma das características marcantes. E isso pode ser visto no fato de arregimentar e realizar o embate de forças e funções (as regras sob as quais se organizam, os planos hierárquicos ou horizontais das cooperações), na definição da ocupação e reconfiguração do lugar (mise-en-scène, espaço social, arquiteturas e agenciamentos maquínicos de expressão) e do relacionamento entre criadores e público.
Ocorre que a definição do espaço público – do que expressivamente se torna algo público – tem sido justamente devedor dessa metáfora teatral, entendida de modo hegemônico como representação e comunicação.
Venho insistindo que tais formulações não definem uma essência do teatro. Antes disso, elas fazem parte de um processo de subjetivação política do qual essas visões tornam-se máquinas de expressão.
Outro dia, conversava com um amigo e artista, que muito admiro, sobre a noção de “comunicação teatral”. Expressão muito utilizada para dizer do relacionamento entre criadores e público. Ele me perguntou se eu não gostava do termo e simplesmente queria substituir por outro. Se não era uma espécie de birra com a palavra. Invoquei Gilles Deleuze: já temos comunicação demais, é necessário criar ilhas de não comunicação!
A comunicação, segundo Deleuze, é o que tem dominado. E a arte é o que pode resistir a isso. Continuamos a conversa e chegamos, juntos a um lugar de desejo: os espaços e os tempos de um compartilhamento. Tomamos a asserção de Grotowski: atuar diante de alguém e não para alguém. Mas isso é somente uma operação nominal? De modo algum, o pensamento prolonga-se em movimento – e vice-versa. O que eu queria, também, era demover este parceiro de tantas inquietações, desse buraco chamado “significação teatral”. Não queria, então, buscar a verdade última, que essa é outra armadilha, mas sim trazer o parceiro para as potências assignificantes. Que a meu ver, já se encontram no seu próprio trabalho. É puro combate.
Pois então, não se quer com isso dizer que encontramos uma expressão mais aprimorada, no sentido de uma correção etc. Adoto, antes, o viés de um perspectivismo (Nietzsche), no qual o sentido de uma coisa (fenômeno, processo, atividade) está nas forças que ocupam essa coisa e nela se expressam. Assim, representação e comunicação não são conceitos e usos superados. Ao contrário, fazem parte de muitas práticas. São recursos ou instrumentos das máquinas de expressão, que chamamos de teatros, que singularizam certas experiências. Nem piores nem melhores. Porém, não deixemos de registrar: tentam sempre se passar por totalizantes e universais!
A representação e a comunicação são meios estruturantes de uma experiência do teatro como regime significante. E é isso, precisamente, que proponho discutir, procurando mostrar que há experiências que prezam não a significação, mas o sentido. E que passam, por sua vez, por cortes compositivos de a-significação.
Vem a calhar, a esse respeito, um texto de Maurizio Lazzarato, intitulado (O pluralismo semiótico e o novo governo dos signos – homenagem a Félix Guattari – vide, Referências). O autor nos coloca diante de dois regimes de signos: o regime significante e o regime assignificante. E mostra como a metáfora dominante de teatro tem se associado ao regime significante.
Lazzarato distingue, a partir de Guattari, entre servidão social e servidão maquínica. A servidão social é uma modalidade de subjugação e de individuação (identidade, sexo, profissão, nacionalidade etc.) na qual o mundo é apreendido no que Lazzarato chama de “armadilha significante e representativa”. Nela, as multiplicidades e heterogeneidade, assim como toda a vida pré-significante (a infância, o corpo etc.) é capturada pelas semióticas significantes. Os sistemas capitalistas fordistas, assim como o sistema stalinista, baseiam-se nessa sujeição dos processos assignificantes pelos regimes significantes. Lazzarato, aqui, traça paralelos com a noção de sujeição social em Guattari e as sociedades disciplinarias de Foucault. Entretanto, ocorre que o sistema capitalista, segundo Guattari, tem operado cada vez através das semióticas assignificantes. Pois, como mostra Lazzarato:

“O registro maquínico da produção semiótica do capital funciona sobe a base de semióticas assignificantes, que se orientam diretamente ao corpo (os afetos, os desejos, as emoções e as percepções) mediante signos que, em lugar de produzir uma significação, desencadeiam uma ação, uma reação, um comportamento, uma atitude, uma postura. Estas semióticas não significam nada; antes disso, colocam em movimento, ativam.”
Porém, a noção de esfera pública é devedora, em alguns filósofos, da metáfora do teatro como lugar de representação e, mais do que tudo, de significação.

Diz Lazzarato:

“As teorias que fazem da palavra e da linguagem as formas mais importantes ou exclusivas de expressão política (Arendt, Rancière, Virno) parecem ignorar todo o resto das semióticas assignificantes. Isso se deve a que o espaço público no qual se desenvolve o processo de subjetivação (Rancière) ou de individuação (Virno) se concebe como uma cena teatral onde os sujeitos políticos se constituem em sua dimensão molar e representativa, imitando a atuação de um artista ou de um orador diante de um público. A metáfora teatral me parece particularmente prejudicial para apreender o espaço político contemporâneo (Walter Benjamin: ‘essa nova técnica esvazia tanto os parlamentos quanto os teatros’).”

“O processo de subjetivação ou de individuação se vê então mutilado, já que na realidade as semióticas e as máquinas assignificantes redesenham e reconfiguram o espaço público e suas modalidades de expressão, afetando direta e profundamente a ‘palavra política’. Esta já não pode ser descrita mediante o funcionamento do poder de ação da linguagem tal como se exercia na ‘polis’ grega, que é o que, seguindo Hannah Arendt, fazem tais teorias. No espaço público contemporâneo a produção da palavra se organiza ‘industrialmente’ antes que ‘teatralmente’. O processo de subjetivação ou de individuação já não pode se reduzir à sujeição social, deixando completamente em suspenso a servidão maquínica. Paradoxalmente, todas essas teorias políticas e linguísticas contemporâneas que fazem direta ou indiretamente referência à polis e/ou ao teatro nos colocam numa situação pré-capitalista.”

Voltemos ao teatro. O nosso problema torna-se mais intrincado e, de fato, implicado. Porém, em vez de abordá-lo como um processo ideológico, passaríamos a vê-lo, na visada perspectivista e diagramática, procurando ver que forças e linhas (segmentadas, flutuantes ou de fuga) tomam posse dele e nele se expressam. Pois, como diz Deleuze a partir de Nietzsche, não é que exista uma coisa neutra, objetiva, que será apoderada por forças. A coisa é as forças que nela se exprimem.
Poderia contrapor à essa visão de teatro, na qual um emissor dirige-se a um público, uma noção outra, entendida, por exemplo, a partir do que Lazzarato chama de semióticas corporais, que ele reivindica para a dança. E também as visões de Deleuze sobre um teatro como experiência da diferença e de embate de dinamismos e forças, de máscaras anteriores às personas. Portanto, uma cena de potências assignificantes.
Entretanto, a experiência da cena – para ampliar mais o foco do problema e não se restringir a um possível núcleo duro e substancial chamado “teatro” – não está numa apreensão idealista ou pura. Invocamos sim, como no caso de Deleuze e, nessa visão de Guattari trazida por Lazzarato, uma apreensão de forças que podem molecularizar os encontros e os espaços de compartilhamento.
Diria, então, que caberia ver o que se passa em cada momento, em cada configuração de forças. Onde estão as potências de liberação, de não-fechamento e, por onde se dão também as capturas e modelizações do desejo. Para continuar a conversa, que é infinita, recomendo a leitura do texto de Lazzarato: o link encontra-se a seguir, em Referências.
Referências –
– LAZZARATO, Maurizio. El ‘pluaralismo semiótico’ y el nuevo gobierno de los signos. Homenaje a Félix Guattari. Traducción de Marcelo Expósito, revisada por Joaquín Barriendos

As linhas desejantes de uma vida fascista: O Conformista, de Bertolucci

 

Rever O Conformista (1970), de Bernardo Bertolucci, depois de tantos anos, foi uma experiência tão fascinante quanto intrigante. A questão que permanece: a análise das motivações para uma pessoa aderir ao fascismo. E mais ainda: o que seria uma existência fascista, afinal?

O fascismo, mais do que uma ideologia específica (contra a democracia, o parlamentarismo e também contra o socialismo, sendo que o indivíduo se conforma ao coletivo, à corporação e ao Estado), é uma atitude existencial-política. É o que mostra Michel Foucault em Introdução à vida não fascista:

“o inimigo maior, o adversário estratégico (…): o fascismo. E não somente o fascismo histórico de Hitler e de Mussolini – que tão bem souberam mobilizar e utilizar o desejo das massas -, mas o fascismo que está em nós todos, que martela nossos espíritos e nossas condutas cotidianas, o fascismo que nos faz amar o poder, desejar esta coisa que nos domina e nos explora.”

Marcello (Jean Louis Tringnant) é um intelectual que procura o seu amigo cego,  ideólogo do Partido, para aderir voluntariamente ao fascismo. Ao mesmo tempo, pretende-se casar. Seu amigo pergunta o motivo  e ele afirma: para ser uma pessoa normal. Uma pessoa que, segundo ele, ao ver o traseiro de uma mulher, olha para trás, admira e segue em frente. A trivialidade de uma vida como a de qualquer um. Marcello quer ser igual e, como todos os iguais, eliminar em si e nos outros toda e qualquer diferença. Continue lendo As linhas desejantes de uma vida fascista: O Conformista, de Bertolucci

Do CrazyHorse 18 ao exercício micropolítico

Imagem vista do CrazyHorse 18, antes de executar jornalistas da Reuters

Um helicóptero Apache dos EUA, intitulado CrazyHorse 18 (Cavalo Doido 18) ataca um comboio de insurgentes no Iraque. Dois homens conseguem sobreviver, correm e se rendem, largando as armas. O helicóptero mantém os homens sob mira, e os tripulantes ligam para a base e pedem orientações. O rádio dá o retorno: “Nosso advogado diz que eles não podem se render para uma aeronave. Ainda são alvos válidos’’. Então, os tripulantes disparam aquela metralhadora que perfura até blindados.

Esta notícia, retirada do FolhaPress (23.10.2010), é parte de um dos inúmeros relatos dos documentos da Guerra do Iraque, revelados pelo site Wikiliaks.org. A denúncia é importante e está colocando o Império em cheque: uma guerra estúpida, levada a cabo pelo presidente Bush e seu comparsa Tony Blair. Porém, quero chamar a atenção para outro aspecto: a forma-função do Estado e sua lógica totalizante e implacável. CrazyHorse18 esteve, antes, envolvido na morte de dois jornalistas nessa guerra, entre outros ataques fatais a civis (veja o link para o vídeo, mostrando o helicóptero abrindo fogo sobre os civis, em Mais Referências). Continue lendo Do CrazyHorse 18 ao exercício micropolítico

Estética do afecto: trecho de um artigo de Simon O’Sullivan

delphine-seyrig
Delphine Seyrig (O ano passado em Marienbad/L'année dernière à Marienbad, Alain Resnais, 1961)

“Como poderia acontecer que, no pensamento sobre a arte, na leitura do objeto de arte, nós acabamos por perder  o que a arte tem de  melhor? Na verdade o que perdemos define a arte: a estética, porque a arte não é um objeto entre outros, pelo menos não um objeto de  conhecimento (ou não apenas um objeto de conhecimento).  Pelo contrário, a arte faz outra coisa. Na verdade, a arte é  precisamente a antítese do conhecimento; funciona contra o que Lyotard chamou uma vez de  ‘fantasias de realidade’ (A condição pós-moderna). Isso quer dizer que a arte pode muito bem fazer parte do mundo  (afinal de contas é uma coisa produzida), mas ao mesmo tempo está à parte do  mundo. E este distanciamento, no entanto, é o que constitui a sua importância.

Neste artigo, quero pensar um pouco sobre este  distanciamento, este ‘excesso’  ou ‘ruptura’  que, como observa  Lyotard, constitui a efetividade da arte  para além da sua existência como um objeto cultural. Eu quero afirmar que este excesso não precisa ser teorizado como um transcendente, podemos antes pensar o poder estético da arte num sentido imanente, através do recurso à noção de afecto. Continue lendo Estética do afecto: trecho de um artigo de Simon O’Sullivan