Encantamento de Rui Santana


Foto de Tibério Franca – Estado de Minas – divulgação

Rui Santana, artista plástico e guerrilheiro cultural, encantou-se no dia 05 de dezembro último.

Visitei, uma semana antes, sua exposição. Rui acabara de sair de hospital e sentava-se à mesa, recebendo os visitantes, mostrando suas últimas obras. Mas essa é só uma das imagens. As mais lindas estão entre as suas obras. São árvores e mais árvores. Luminosas, iridescentes. Disse ao Rui: alma russa antiga, iluminações puras. E ele me devolveu: uma coisa de cabala…

Conheci Rui nos idos 70-80. Estávamos numa sala da Escola Maternal Balão Vermelho. Rui acabara de matricular seu menino e eu brincava com as crianças. E ele me disse de seu interesse em aliar psicanálise e arte. E falava bem, com desejo de viver e de realizar.

Vez por outro tinha mais e mais notícias de Rui. Depois encontramo-nos num dos Festivais de Inverno da UFMG. Acho que foi em São João Del Rey. Ele me mostrou suas pinturas, que eu vi pela primeira vez. Não me demorava tanto nas artes plásticas. Mas naquele momento confirmei uma coisa: quando a obra possui forças ela o puxa para dentro. Você não consegue parar num detalhe sem que este o leve para o todo, mas não um todo “parado”, “fixo” e sim um todo dinâmico.

Depois nos encontramos novamente na época em que eu dirigia o Teatro Marília, na gestão de Patrus Ananias (1993-1996). O Teatro me foi confiado aos pedaços. Uma mobilização de artistas fez com que a Prefeitura passasse a administrar o espaço. Convidado, então,pela secretária de cultura, Maria Antonieta Antunes Cunha, a dirigi-lo e a recuperá-lo, iniciei um plano de várias frentes. Numa dessas batalhas, encontrei-me com Rui Santana e, numa conversa informal, ele propôs engajar-se comigo na luta.

Rui desenhou, então, algumas ações corajosas. Entre muitas outras estratégias que desenvolvíamos para trazer vida para o Marília (o teatro estava com um ar “pornô” na programação e um tom de “boca do lixo” no estado físico), foi Rui Santana quem trouxe mais ousadia: realizar um leilão de arte em prol do teatro. A outra ação foi um Baile de Máscaras, com instalações do grupo Kria. Isso sem falar na mobilização na mídia, no Projeto História do Teatro Marília e outras ações.

O leilão teve leiloeiro oficial e tudo o mais. Na verdade, Rui realizara mais do que uma ação para trazer recursos para o Teatro: ele fez uma intervenção no mercado das artes na cidade. As pessoas puderam comprar obras de artistas reconhecidos a preço baratíssimo. Foi um sucesso absoluto e, diga-se de passagem, com muitas críticas de galerias e setores conservadores que o acusavam de desvalorização do mercado, diga-se de passagem, totalmente: elitista.

Essa era uma idéia que Rui perseguia o tempo todo: democratização do consumo das artes plásticas. Quando eu estava à frente do Centro de Cultura Belo Horizonte, novamente procurei Rui para desenvolvermos mais uma ação de guerrilha cultural. E Rui apresentou sua idéia: vamos realizar um grande supermercado das artes plásticas, onde as pessoas poderão comprar obras em prateleiras, a preço acessível, e tudo o mais. Não conseguimos realizar, tanto eu quanto Rui já estávamos tomados por muitas outras tarefas.

A passagem de Rui pelo projeto Arena da Cultura, da Fundação Municipal de Cultura de Belo Horizonte, trouxe qualidade, audácia e mobilização social em torno dos jovens e do graffiti. Depois veio a 1a Bienal Internacional de Graffiti de BH. Rui estava, cada vez mais, defendendo a idéia de uma arte livre, de acesso amplo.

Isso é só um pouquinho. Muito pouco, mesmo. Quando visitei Rui pela última vez, o círculo quase se fechou, que ele não fecha, pois é pincel passado rápido e sem parar sobre o papel. Há incompletudes… Mas o círculo, se tivesse um fechamento, seria este este: o momento que eu o vi pela primeira vez e o momento em que o vi pela última vez. Ou são apenas duas imagens-lembrança num caudal de lembranças-puras? Estas sim, carregam a força da virtualidade, daquilo que não parou, que é fluxo.

Então, o que a produção de imagens sobre uma existência significa? Nada diante da imensidão da coragem, força e vontade de viver que Rui possuía e transmitia. Nada diante da reinvenção de si no dia-a-dia, obra de um guerreiro das estepes. Nada diante do universo da expressão e do mistério que é uma vida humana.

Mais referências sobre Rui Santana:
Exposição mostra pinturas de Rui Santana. Por Water Sebastião, Divirta-se – Estado de Minas.

Experimentação abre o Verão Arte Contemporânea

Caminho, em foto de Glenio Campregher

Verão Arte Contemporânea, projeto que reune a máquina de guerra de poéticas cênicas, visuais, corporais, literárias e outras, atracou estreando no Teatro Francisco Nunes, em Belo Horizonte, dois eventos singulares: Caminho e Salão QuasiArte, com destaque para a Cabana de Rubens Espírito Santo.

Caminho é uma criação do poeta e performer Ricardo Aleixo com o bailarino Rui Moreira, tendo ainda a participação do song designer Murilo Corrêa e dos dançarinos Rato e Leo Bboy. O espetáculo explora relações não hierárquicas entre som, palavra, imagem e corpo. Nada sobra nesse espetáculo – não há excedente de idéias, pensamentos ou criação. Há um fio correndo luminoso e afiado. Há momentos preciosos, nos quais linhas simultâneas são exploradas. As ações poéticas são minimalistas e sensoriais. A materialidade cênica é o próprio discurso, tendo a poesia verbovisual, como diz o próprio Ricardo Aleixo, como caminho que segue no paralelismo com o corpo.

Rubens Espírito Santo na Cabana, em foto de Glenio Campregher

No Salão QuasiArte, no foyer do Teatro Francisco Nunes, são expostos objetos que, como o nome diz, podem ser quase arte. Estão na fronteira. O público, no caso, é quem decide. Chamo a atenção para a Cabana de Rubens Espírito Santo, que veio de São Paulo para expor no Verão Arte Contemporânea a convite de Ione Medeiros, do Grupo Oficcina Multimédia.
Rubens criou uma instalação que é uma cabana, como ele chama. Preferiria dizer que se trata de um barraco em órbita. É uma arte que você pode usar. Isso pode ser difícil de conceber quando a arte tomou em alguns trezentos anos de História no Ocidente o caráter contemplativo. Ou porque algumas obras desse tipo tornam-se impossíveis de serem comercializadas no mercado convencional de arte, a que servem muitos críticos, diga-se somente para lembrar.

Na entrada, uma campainha com o aviso: Aperte e Theodor Adorno irá atender. No entanto, as referências que se encontram na cabana, ou no barraco orbital, não pertencem a uma identidade. Nem são somente eruditas e nem se restringem a um universo que circunscreveria um personagem social – como um mendigo, por exemplo. São emaranhados e pontas soltas que podem te levar para conexões não previstas, quer dizer, não-causais.

Na abertura do evento, um casal dançava juntinho num canto da cabana, que tem toca-dicos (vinil) e uma tv com imagens, enquanto outras pessoas vasculhavam suas paredes, sentavam-se, escreviam ou apenas olhavam. É uma arte psicótica, como lembrou uma atriz, ali presente. Abre conexões divergentes e que não estabelecem elos de significação. Não há metáforas, mas objetos encontrados num percurso. Fotos, citações, escritos, objetos diversos, tudo isso povoa um mundo. É também uma estética da probreza, que se contrapõe ao mundo fashion e frívolo de grande parte das produções em artes plásticas.

O evento continua com outras apresentações, nos Teatros da Fundação Municipal de Cultura, Francisco Nunes e Marília, tendo co-realização da Oficina Multimédia e da Prefeitura de Belo Horizonte. A idealização do Verão Arte é de Ione de Medeiros (Grupo Oficcina Multimédia), Keyla Monadjemi (Meia Ponta Cia. de Dança) e Rui Moreira

É um projeto de puro risco. Um grupo de artistas, sem recursos de Leis de Incentivo, procuraram a Fundação Municipal de Cultura, no final de 2006, para viabilizar o projeto. Foram garantidos os Teatros, as equipes cenotécnicas e apoio em divulgação. Cada artista, grupo ou coletivo de criação assume sua própria produção.

Abrir espaços para a arte contemporânea exige coragem,principalmente quando o mercado cultural tem a forte tendência ao mediano, ao comunicável, ao vendável. E a adesão das pessoas mostra que as políticas públicas podem abarcar a diferença e a singularidade, nem sempre tendo que esperar as grandes verbas. O que não quer dizer que os artistas abrem mão de melhores condições, mas apenas que, nesse momento, apostam no risco de abrir uma fenda na paisagem belohorizontina.

Como diretor dos Teatros da Fundação Municipal de Cultura, chamo a atenção para as potências do projeto Verão Arte Contemporãnea:

1. O projeto é afirmativo e procura a expansão de suas potências. Não é um encontro de lamurientos, mas de pessoas que resolveram modificar a paisagem do verão em Belo Horizonte;

2. Não pertece a nenhuma corporação artística. Não há um dentro e um fora nesse sentido. É um movimento. Acontece.

3. Define arte contemporânea pelo desejo de artistas atravessarem o seu próprio tempo. Não tentando retratá-lo ou se colocando como representantes de uma possível contemporaneidade. Não representam, as próprias coisas (e pessoas) estão ali: expondo suas criações. Contemporâneo não como uma categoria de qualquer pós-isso, ou pós-aquilo, mas como pensamento de um espírito de época, com suas ironias, com suas incertezas e potencial afirmativo.

Os Teatros Municipais cumprem, assim, uma de suas funções (além daquelas convencionais), que é, nas palavras do próprio Rubens Espírito Santo, numa entrevista à imprensa, a de perverter o sentido (prévio) do uso de seus espaços.
Mais informações sobre o Verão Arte Conteporânea em http://www.oficcinamultimedia.com.br/veraoartecontemporanea.htm