O Teatro de Grupo: uma resposta aos mestres

Imagem: Tomás Rotger

Dois diretores do Teatro Mineiro deram uma entrevista ao jornal O Estado de Minas, que foi intitulada de  “Vozes da Experiência”. O que eles disseram tem a ver exclusivamente com a configuração dos agenciamentos maquínicos pelos quais estão passando. E assim com qualquer artista e ser humano engajado na luta pela criação ou pela produção de si.

Porém, em alguns trechos a entrevista deprecia todo um movimento deflagrado pela produção de Teatro de Grupo. E é justamente aí que a coisa se complica. Os dois diretores, Pedro Paula Cava e J. D’angelo, acabaram gerando uma polêmica. Principalmente porque o outro lado, depreciado pelas críticas, não foi ouvido.

Gustavo Bones, jovem artista e um dos fundadores de um dos mais criativos e aplaudidos (por público e crítica) grupos de teatro de Belo Horizonte, o Espanca, devolveu o troco. A partir das mesmas perguntas feitas pelo jornalista, Gustavo Bones fez outra entrevista, intitulada, não sem um tom de ironia,  de “Resposta aos Mestres”.  Como o texto de Gustavo circulou em email aberto, não sendo obviamente publicado pelo jornal, abrimos o espaço para a sua réplica. Passemos, então,  ao conteúdo da matéria, apresentando no  final desta os link para a entrevista que originou a resposta, incluindo tréplica e outras repercussões.

Resposta aos mestres – por Gustavo Bones

Li, domingo último, uma entrevista concedida por dois ícones do teatro belorizontino ao jornalista Ailton Magioli, do jornal Estado de Minas. Pedro Paulo Cava e Jota Dangelo estão lançando livros sobre a história do teatro na cidade e isso muito me alegra. Nessa entrevista, os mestres falaram sobre a produção teatral de BH, sobre a Campanha de Popularização, o papel da crítica, as leis de incentivo e o teatro de grupo. Ao terminar de ler esta entrevista – com perguntas muito pertinentes, por sinal – tive certeza de que os leitores do jornal precisavam de outra visão sobre o panorama teatral da cidade. Espero, com esta “resposta”, contribuir com a divulgação de uma idéia de cultura e principalmente, de sociedade, que o teatro de grupo (chamado por eles de “teatro charada”) pretende difundir. Para isso, após breve introdução, respondo às mesmas perguntas respondidas por  Cava e Dangelo. Espero falar em nome de meu grupo, o espanca!, de grupos amigos e de artistas independentes que, como nós, lutam por políticas públicas de fomento à produção e investigação artísticas e pela garantia do direito constitucional de acesso à cultura.

Muito prazer, meu nome é Gustavo Bones, sou ator de teatro. Há quase 6 anos, fundei junto a artistas que admiro muito, o grupo espanca!. Eu, Grace Passô, Marcelo Castro e vários parceiros de diversas áreas das artes de Minas e do Brasil, criamos três espetáculos que, além de vencerem os principais prêmios de Belo Horizonte e do Brasil, participaram dos mais importantes festivais de teatro do país e foram vistos por mais de 55.000 pessoas, em aproximadamente 50 cidades de 12 estados brasileiros e em Berlim, na Alemanha. Mas estes números não são o mais importante para nós. O mais importante é que estes espetáculos são fruto de uma intensa reflexão coletiva sobre nossa condição de estar no mundo e sobre a arte teatral. Esperamos com eles suscitar nossos espectadores a também refletirem sobre si e sobre nossa vida em sociedade. E através deles, nos posicionamos ética e esteticamente num país em que, julgamos, constrói lentamente uma idéia de cidadania. E queremos contribuir com essa caminhada. Uma caminhada que devemos, todos os brasileiros, fazer em grupo.

Foi ainda adolescente, ao assistir trabalhos como “Romeu e Julieta”, do Grupo Galpão, “O Homem da Cabeça de Papelão”, do Grupo Trama, “A Hora da Estrela”, da Cia. Acaso e “Lusco Fusco” da Cia. Acômica, que vi que o teatro pode ser uma obra de arte feita em conjunto, reflexo de ansiedades artísticas de atores, diretores e demais criadores e que assim, comunique um posicionamento crítico diante do mundo. Foi com Chico Pelúcio, do Grupo Galpão e Cida Falabella, da ZAP 18, que aprendi a me posicionar como artista, a dialogar para construir e que é preciso ter um compromisso com o que se diz no palco. Foram nos grupos de teatro de Belo Horizonte que eu e meus companheiros do espanca! nos formamos. E foi em nosso grupo de teatro que descobrimos, juntos, maneiras de criar espetáculos que vão além do simples divertimento.

O que melhorou e o que piorou no teatro feito em Minas Gerais?

Tivemos, ultimamente, pequenos, porém importantes avanços no teatro belorizontino. A consolidação de espaços de criação, formação de atores e cidadãos e divulgação do teatro (como a ZAP18 e o Galpão Cine Horto), e das sedes de grupos utilizados como espaços de apresentação e troca com a comunidade; a criação do edital “Cena Minas”, que visa a formação de público, a manutenção de companhias teatrais e a aquisição de equipamentos para circos do estado; a edificação do Verão Arte Contemporânea como evento coordenado por artistas, abrindo espaços para a divulgação de novos trabalhos, companhias e pensamentos; e a criação dos fundos estadual e municipal de cultura, que garantem verba para o fomento à arte no estado, independente das leis do mercado. Sabemos que estes fatos e programas ainda são pouco diante da realidade teatral da cidade e do estado (e em alguns casos, mal regulamentados) e que ainda temos uma grande luta pela garantia destes programas como políticas públicas que assegurem a todos os cidadãos o direito constitucional ao acesso à cultura. Bom exemplo disso foi a recente transformação do FIT (Festival Internacional de Teatro) em Lei do Município de Belo Horizonte, garantindo sua realização independentemente dos programas de governos que virão.

Fenômeno de público, a Campanha de Popularização do Teatro e da Dança é alvo de crí­ticas, principalmente por causa do grande número de comédias na programação. O que vocês têm a dizer sobre isso?

Diante da Campanha de Popularização, duas formas de encarar a função social do teatro podem ser destacadas. Uma primeira que responde mais prontamente à demanda de parte expressiva da população, que procura o teatro como fonte exclusiva de diversão, de entretenimento. Em geral, ao responder tão prontamente a essa demanda, esse tipo de teatro acaba por reforçar uma visão mercadológica e a contribuir com a fornação de um público aliendado, acomodado. Uma outra forma de conceber a função do teatro pode ser considerada como sendo mais investigativa, mais comprometida com uma reflexão crítica  sobre a realidade. Em geral, o teatro nesta perspectiva propõe  uma forma sensível de encarar o mundo.

Este evento é realmente um sucesso de mercado. Vende, dá lucro, demanda um trabalho burocrático (não criativo) de seus organizadores e conta ainda com patrocinadores de peso, através das leis de incentivo. Queremos que as pessoas freqüentem o teatro. O fato de a população de BH ir ao teatro durante a Campanha  é uma vitória dos produtores e da cidade. Mas, cabe aos artistas refletirem sobre o que apresentam a esses espectadores, enquanto visão de mundo. E lutar contra a imbecilização de nossa sociedade, fugindo dos padrões alienantes da TV, do formato sitcom, da perpetuação de preconceitos.

Além disso, cria-se um nó: a organização exige que as produções cobrem mais caro durante o ano para garantir a participação na Campanha, única época do ano em que estamos isentos de cobrar a meia entrada.

Sempre é possível encontrar espetáculos de qualidade na programação. Mas o que temos que entender é que a Campanha de Popularização é um evento organizado por produtores que encaram seus espetáculos como produtos a serem vendidos, visando exclusivamente o lucro. Mas existe um teatro que não cabe nesse formato. Um teatro feito por artistas, que querem formar um público consciente, inquieto, que não se interessa exclusivamente pelo divertimento. Este teatro, por não seguir as regras do mercado e por ser essencial na formação da identidade dos membros de uma sociedade, precisa do apoio das instituições públicas para existir. E deve contar com políticas púbicas, transparentes, garantidas por lei, que o viabilize.

Qual é o papel da crítica no fomento da cena teatral?

Cabe à crítica conhecer a realidade teatral brasileira, mineira e belorizontina e saber reconhecer a importância de uma obra teatral neste contexto. Vislumbramos a crítica como uma forma de abrir espaços para a discussão e a reflexão sobre o teatro e sua força no mundo. Claro que um crítico teatral deve conhecer os fundamentos da cena. Mas sentimos falta de uma crítica que saia da lógica competitiva do mercado, contestando os mecanismos de opressão e valorizando o pensamento crítico diante da realidade. Faz muita falta em Belo Horizonte uma crítica preocupada com os impactos sociais, estéticos e políticos de uma obra, menos envolvida com rankings e listas de mérito.

As leis de incentivo realmente estimulam a produção?

A produção mercadológica, talvez. As leis de incentivo estimulam a lei do mercado, que, em geral, não coincide com as “leis da arte”. Elas funcionam assim: um proponente apresenta uma proposta, solicitando uma verba para a realização de um projeto cultural. O poder público garante, para alguns, o direito de solicitar essa verba junto à iniciativa privada que tem como estímulo a dedução de impostos devidos ao governo. Diante dessa aprovação, os proponentes devem buscar, junto às empresas, verba para a realização do seu projeto. Para chegar até uma empresa, contratam captadores, que levam propostas culturais até os responsáveis dentro das empresas, apenas fechando negócios, embolsando dinheiro sem realizar nenhuma etapa do projeto. E, quando conseguem sensibilizar uma empresa, os projetos fazem propaganda institucional para essa patrocinadora. Portanto, uma idéia contemplada com uma lei de incentivo, deve atender de alguma maneira aos interesses lucrativos da iniciativa privada. As leis de incentivo utilizam recursos públicos para satisfazer os desejos dos departamentos de marketing das empresas. E para atender a um teatro que não responde à lógica mercantil, temos que repensar essa forma de viabilização. A classe teatral brasileira, quando se uniu e conseguiu dialogar com governantes dispostos a pensar a cultura como política de Estado criou alternativas importantes como as Leis de Fomento ao Teatro das cidades de São Paulo (referência nacional) e Porto Alegre e a proposta original do Prêmio Teatro Brasileiro (recentemente enviado ao Congresso pelo Presidente Lula, ainda sem lei regulamentar, através do chamado Programa Procultura).

De que o teatro precisa neste momento?

O teatro no Brasil ainda precisa ser reconhecido como bem simbólico, essencial para a vida em sociedade. O desejo de transformar experiências em símbolos é essencial à vida humana e sem ele, nos tornaremos egoístas e duros. E a cultura, como todo direito previsto na Constituição de nosso país, deve ser assegurada a todos pelo  Estado brasileiro. Para isso, precisamos de políticas públicas, previstas em lei, que garantam a todos o direito de produzir e ter acesso aos bens simbólicos da sociedade. Precisamos urgentemente pensar em alternativas que garantam a realização de trabalhos que apostem na pesquisa de linguagem continuada e em relações estreitas com a comunidade.

O teatro de grupo continua sendo uma alternativa?

O teatro de grupo é, sem dúvida, uma alternativa para artistas que buscam desenvolver um trabalho continuado, de estreito diálogo com outros artistas e com a comunidade. É claro que ele não é a única alternativa para isso. Nem deve ser. Mas, como vem se destacando como uma atividade que questiona a lógica do mercado, deve contar com o apoio do poder público e da sociedade civil. O teatro de grupo é tido como uma característica do Estado de Minas Gerais, símbolo de reconhecimento e prestígio na cena nacional. É inegável que grupos como o Galpão, ZAP18, Trama, Giramundo, Acômica, Oficcina Mutimedia, Armatrux (apenas alguns exemplos) já produziram um bem imensurável para a sociedade e compõem um patrimônio de Minas e do Brasil. E, portanto, devem ser estimulados e protegidos como tal. Fomentar o surgimento de novos grupos e oferecer condições para seu pleno funcionamento é obrigação de um país que queira se desenvolver.

Mais referências –

Vozes da experiência: entrevista dos diretores Pedro Paulo Cava e J. D’Angelo

Grupo Espanca

Blog de Jefferson Fonseca: tréplica e outras repercussões

O Teatro e as forças do coletivo – por Luiz C. Garrocho

6 ideias sobre “O Teatro de Grupo: uma resposta aos mestres”

  1. Um esboço de resposta para jogar a bola pra frente: o Garrocho não explica o que são os tais agenciamentos maquínicos e eu também não explicarei. Basta por hora dizer que os agenciamentos maquínicos são compostos por signos, linguagens, regras, leis,matérias, luzes,tempos,espaços.Os agenciamentos nomeados como ‘arte’ e ‘cultura’,’contemporânea’,’teatro de grupo’, entre aspas para frisar que são palavras que ordenam e catalogam uma produção de imagens e falas como forças que se interceptam,contaminam,combatem e, não menos importante, produzem a atualidade.
    Parece complicado e é mesmo, se lembrarmos da etimologia da palavra ‘complicado’: aquilo que dobra junto.Mais interessante que descomplicar e simplificar ou reduzir esta complicação é tentar desdobrar alguns elementos dessas dobras.
    A história parece repetir-se quando de tempos em tempos aparece uma linha divisória: de um lado, pais, mães, precursores, fundadores, inovadores, desbravadores de tempos atrás que trazem à cena memórias importantes ( pois somos um país desmemoriado) e em cujas falas há também um quê de ressentimento do tipo ‘no nosso tempo era assim’,’antes não havia…mas mesmo assim nós…’, ‘fomos os combatentes que abrimos caminho para …’,’hoje em dia o teatro parece charada’.
    Do outro lado da linha,normalmente habitado por gente mais nova que também precisa afirmar sua existência e seu lugar ao sol.Mas que também não escapa de contradições tristes quando querem afirmar seu caráter experimental,inovador,independente e ao mesmo tempo apelar para o colo do Estado e dos poderes vigentes ( com seu cortejo de palavras de ordem).
    Os dois lados procuram afirmar-se como legítimos pelo número de prêmios,de público, pelo caráter inovador e trocam gentilezas ou ironias,reconhecem-se e estranham-se.
    Como não quero alongar-me escrevendo um tratado e a paciência dos leitores de blog tem um limite que já ultrapassei, interrompo este texto abruptamente,esperando que alguém aceite o lance e continue o jogo!
    abraços,
    MK

  2. Achei a discussão interessante mas mais importante seria pensar uma arte que se diz política e pretensamente revolucionária mas que não consegue pensar, questionar e existir sem fazer uso tão diretamente de dinheiro. Claro, vivemos em um sistema capitalista onde é necessário a todo instante pagar para estar vivo, mas toda vez que começam certas discussões sobre como necessariamente há de ter incentivo a arte, me lembro de uma frase que diz: “A Cultura? Mas essa é a mercadoria ideal, que obriga a comprar todas as outras.”
    A maioria dos artistas se furta de um debate político mais aprofundado pois sabem que sustentar uma posição de que a arte vai mudar o mundo é cair em um brutal solispsismo, pois eles vão ver que o que fazem na maior parte das vezes é manter o status quo do padrão dominante.
    Receber qualquer tipo de incentivo, como por exemplo, Petrobras para fazer “cultura” e “arte” não é estar isento ideologicamente… você está sim, compactuando com um mercado e transformando sua amada “arte” em mercadoria… então me soa quase ingenuidade afirmar que as ditas peças de arte/experimentais não são produtos, elas são e se tentam não ser, com certeza se transformarão mais cedo ou tarde. Mesmo o uso dos chamados “fundos de cultura” assemelha-se a um aparelhamento, já que o estado obriga que a obra vincule sua “marca” ao produto. Repito, não sejamos ingênuos de achar que isso não apresenta um problema concreto a ser pensado.
    O que eu vejo nessa conversa da chamada velha e nova guarda do teatro belohorizontino são basicamente dois lados que veem na arte um potencial mais subversivo do que ela é (deixando claro que eu faço uma diferenciação de arte e ações/objetos estéticos), ao colocar a arte em um patamar de um bem que deve ser levado a todos isso obscurece o ponto que quase sempre soa: “eu sou artista e é DEVER do estado (mesmo que eu não concorde com ele) de levar o MEU trabalho as populações que NECESSITAM dele”… uma espécie de “boa ação para as massas”.
    Sobre o teatro de grupo o que eu vejo na verdade, foi uma questão de se adaptar ao modo de produção do teatro, de um teatro como uma empresa TBC , que se sustentavam economicamente até chegar ao ponto que o único teatro possível a ser feito é o de “grupo” , “experimental” subvencionado pelo estado, então me parece ser também uma questão de sobrevivência, esse é atualmente o modelo que sobrevive (mais informações sobre o que eu estou falando aqui: http://www.bacante.com.br/blog/2009/07/licao-sem-data-ou-so-pra-fechar)… se é melhor ou pior eu não sei mas muitas vezes os grupos revestem seus argumentos de pretensos trabalhos coletivos quando na verdade viraram empresas, ao criar uma marca/linguagem/nome que são obrigados a perpetuar eternamente para continuar sobrevivendo.
    Só me soa estranho e meio ingênuo que mais que um debate ideológico entre os dois posicionamentos (e não escondo o meu também) esteja sendo debatido nas entrelinhas modos de produção e principalmente qual desses lados merece receber a “fatia” das migalhas que é destinada a tão “essencial” cultural….

  3. Olá Gustavo, Garrocho e Marcelo!

    Obrigada por (re)tratarem esse assunto, e por fazê-lo com propriedade. A fala de vocês é uma alavanca, faz refletir sobre a evolução da cena teatral mineira. É constatando essa evolução que gostaria de levantar um ponto. Na verdade, trato especificamente da transformação do FIT em Lei do Município.

    Penso que desvincular um evento do porte e da relevância do FIT de políticas de governo seja um grande avanço. Ao tornar o evento parte do calendário oficial da cidade e assim, algo perene e com existência garantida, se gera um alívio! Um respiro, principalmente para os artistas locais, diretamente afetados pelo evento, tanto no sentido da produção que ele fomenta, quando na fruição de arte -- internacional e nacional -- que ele permite!

    Por exemplo, o FIT promove ações extraordinárias voltadas exclusivamente aos artistas mineiros, como a manutenção de uma curadoria especial para peças e grupos de Minas e auxílio a montagem de novo espetáculo. Louvo tais ações!!

    É justamente por ver o peso dessas iniciativas que penso que elas deveriam ser mais amplamente divulgadas!! Conversando com produtores, artistas e técnicos da cena teatral mineira, poucos conhecem os Editais do FIT, e menos ainda sabem que o FIT está recebendo propostas para curadoria da edição 2010 NESSE EXATO MOMEMTO!

    Pensar essas ações é muito bom, e torná-las acessíveis ao maior número de pessoas é valorizá-las ainda mais.

    Dito isso, despeço-me, com meu abraço e sorriso!

    Christina Fornaciari

  4. Que bom, as idéias circularam a partir da mensagem do Garrocho!Diferenciação entre arte e objetos estéticos, arte e cultura, modos de produção, ‘deveres do Estado’,respiros,paradas,movimentos e sorrisos…mais elementos para o agenciamento citado pelo Garrocho desta vez quebrando velhas dicotomias.
    Trazendo à cena o nome deste blog, a disputa pelo recebimento de migalhas seria tarefa do olho de urubu?Ou não seria bem essa ave, já que estes pássaros realizam a importante tarefa de limpar o ambiente de carcaças.Sugestões abertas…
    mk

  5. Bons toques de bola!

    Marcelo Kraiser sempre pega a gente no contra-pé. levando o time para jogar em outro campo. Evitar o jogo fácil das escaramuças, opiniões e mais opiniões. Enfim: sair da doxa (opinião) e arriscar-se no ato do pensar criativo. Christina Fornaciari não entra propriamente no assunto, mas sugere olhar para eventos que já estão ocorrendo. O Conjunto Vazio pega a bola, já fora da doxa, questiona o lugar do artista na sociedade capitalista, expondo as máscaras da boa-vontade.

    Penso que a primeira entrevista, dada ao jornal O Estado de Minas, prepara uma “isca”. E tudo o que vem depois acaba por “morder a isca”. Cada resposta produz, por sua vez, seu próprio agenciamento maquínico. Marcelo Kraiser discorreu sobre o tema com cortes e fluxos. No Dicionário Deleuze, François Zourabichvili explica o agenciamento, sobre o qual reproduzo uma frase:

    “Dir-se-à (…) que se está em presença de um agenciamento todas as vezes em que pudermos identificar e descrever o acomplamento de um conjunto de relações materiais e de um regime de signos correspondente.”

    Não poderíamos um agenciamento também como os vínculos desejantes que formam a matéria pela qual uma subjetividade se produz? E ao entrarmos nesse assunto os agenciamentos se conectam, se produzem…

    Isso não me impede de ver a necessidade da resposta de Gustavo Bones. Em certo sentido, alguém teria que responder mesmo. Até porque estão lá, na primeira entrevista, opiniões que simplesmente distorcem as coisas. E qual a importância real disso? Se não houvesse debate, talvez nenhuma…

    Mas veja bem: há uma força atrativa naqueles argumentos, pedindo que alguém responda. Seria melhor não atender ao pedido (de resposta)? Uma das estratégicas é a de não fazer o vínculo. Até porque não se trata na primeira entrevisa de uma análise, de um estudo ou de um pensamento. De todo jeito, Olho-de-Corvo publicou o assunto. E devo aos comentadores, até o presente momento, o fato de terem elevado o nível do debate. A “chamada” foi em boa hora!

    Porém, entendo que a resposta de Gustavo Bones cumpriu seu papel.Traçou uma visão diversa do modo como artistas de teatro de grupo se organizam, de como entendem o papel das leis de incentivo. Além disso, não podemos esquecer que a renovação da linguagem teatral teve nos coletivos teatrais um papel muito importante. E penso que a segunda entrevista pode ser lida em contra-ponto com as questões colocadas pelo Conjunto Vazio e por Marcelo Kraiser.

    E já que a bola está rolando, entro em campo com algumas questões para os parceiros e parceiras desse agenciamento em tela:

    1. Os financiamentos públicos são recursos que nos pertencem.

    Tenho insistido muito nisso. E nesse ponto, o texto citado no link pelo Conjunto Vazio ( Bacantes em Obras ) apresenta alguns tópicos interessantes. Cito, por exemplo, a diferenciação entre políticas de Estado e políticas de Governo. As primeiras dizem de obrigações, em termos estruturais, que todo e qualquer governo deve realizar com vistas ao fomento cultural. As últimas dizem respeito a investimentos conjunturais. Porém, coloco já outra questão: o investimento público na cultura costuma ser entendido pela maior parte dos artistas profissionais somente como meio de se obter recursos do Estado. Não percebem as mudanças do nosso tempo: as políticas intersetoriais, a relação com a produção cultural não profissional (mas que não a exclui como horizonte possível), o papel da juventude, a multidão em oposição à massa passiva, a molecularização de grande parte da produção cultural contemporânea. Aferram-se a um modelo único: a correspondência biunívoca entre Estado e Corporação.

    2. Penso que reduzir a existência de grupos de teatro ao fator econômico, como o faz o Luiz Carlos Moreira no texto citado, apesar de ter traçado um painel interessante desse movimento, é ficar preso a um economicismo redutor.

    Por essa via, ignoramos o que esse tipo de trabalho coletivo gerou e tem gerado no movimento artístico e teatral. Quero dizer das necessidades históricas de um teatro moderno, capaz de produzir um discurso cênico e do papel que o coletivo desempenha aí.

    Escrevi um texto sobre os coletivos e o teatro. Foi para a Revista do Fit de 2008: O Teatro e as forças do coletivo. O que aponto lá é o surgimento de três tipos de associacionismo: o tipo “empresarial”, o fenômeno dos grupos, e um terceiro, mais nômade.

    3. Há toda uma questão de hegemonia atravessando o debate.

    Este ponto diz respeito aos financiamentos, à representação política,ao reconhecimento etc. Há uma disputa antiga em Belo Horizonte no que diz respeito a isso. E está em jogo, também, concepções opostas sobre o papel do Estado no financiamento da cultura.

    Por isso vejo que as “iscas” presentes na primeira entrevista, com ares de intimidação e distorção da informação, buscam na verdade arregimentar adesões entre os artistas de teatro. Aliás, uma curiosidade: o termo “classe”, citado várias vezes nessa entrevista e em vários debates é, no mínimo, muito engraçado. Artistas (e outros segmentos profissionais ou amadores) não formam uma classe social (veja, por exemplo, este post sobre o assunto na Revista CaririCult)

    A questão que se coloca: os “novos” realmente modificarão alguma coisa ou se contentarão em apenas fazer a “troca da guarda”? Será que os grupos experimentais não irão produzir outra hegemonia? Atrás de uma linha desterritorializante sempre vem uma linha de reterritorialização. Daí a dica de Deleuze-Guattari: reterritorialize-se na desterritorialização. Caso contrário, você passa a ser mais um imperialista e verá seus dias contando os inimigos que podem destruir seu território! Invocaríamos Foucault: como evitar a caída numa vida fascista!

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