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É só mais um dia que vai

A parte da frente do ônibus, anterior à roleta e onde fica o motorista, começa a encher sem parar. Ali se juntam algumas pessoas idosas que não têm o cartão de passe livre e devem descer pela porta da frente, e mais alguns e algumas jovens que provavelmente não pretendem pagar passagem. Tarde de um final de recesso escolar. Os corpos e as sensações flutuam dentro do coletivo de transporte.

A moça de musculatura forte, quase certo que por natureza ou trabalho, está de short e senta no colo de uma outra, também de short. A roupa é mínima. O olhar dessa que se senta no colo da outra é vago e parece não estar ali, naquele ônibus, naquele momento. Olha à frente e para o lado através da janela como se nada existisse, ao mesmo tempo em que está atenta, de algum modo, ao seu entorno. Diria que ela, se provocada, encara e bate – uma suposição apenas. Parecem personagens de algum filme futurista que entraram ali. Por outro viés, esse que escreve é um personagem do passado e não entende nada do que está se passando nesse mundo que lhe advém. Um modo de ver e sentir deslocado é salutar e potente quando não é um julgamento. Pois permite o estranhamento de si e de tudo em volta.

Uma senhora magra, por volta do seus setenta a oitenta anos se levanta, o universo inteiro oscila e um vendedor de brindes cumprimenta as pessoas em nome de Deus, pedindo uma contribuição para a ação social. Do meu lado, em pé comigo e tantas outras pessoas, um jovem negro comenta: esse ônibus está muito cheio. Conversamos rapidamente. Ele reclama que não há lugar para sentar. Lembra que sumiram com o trocador. O que por lei, em dia de semana, em horário diurno, não seria permitido, mas quem obedece? Não serão os donos das linhas que irão se pautar pela legalidade, enquanto dela puderem se furtar, apesar das diversas ações públicas tentando coibir essa prática.

O rapaz ainda se mostra gentil com as pessoas que quase esbarram nele. Os corpos flutuam dentro do coletivo de transporte. Este é um ônibus que faz a ligação com uma das maiores vilas da região leste de Belo Horizonte. No meio do espaço vago para cadeirante há uma dessas pias profissionais de lavar cabelo que, de muito velha e desgatada, alguém leva para usar ou vender. O espaço fica mais apertado um pouco.

Observa-se, por esse amontado de pessoas perto do motorista, que o preço das passagens tornou-se muito pesado no orçamento das pessoas mais pobres. Se um alguém pega 02 ônibus por dia, ao preço de 4,50, ela terá um custo mensal de 180,00. Para quem ganha um salário mínimo e possui filhos, imagine como é isso. Os mais jovens, se querem deslocar-se pela cidade, são obrigados a burlar e a não pagar passagem. Daí todo mundo se acotovelar à frente, antes da roleta.

O ônibus ruge em cada curva, os corpos mais uma vez balançam e as sensações viajam. E lá na frente só vai se acumulando gente. Está na hora de descer. Despeço-me do jovem negro. Piso na calçada, a luz da tarde chega brilhando e vejo o povo das ruas – os que na maioria são negros e pobres. Junto àqueles e aquelas que, como eu, andam de ônibus ou transitam pela região central.

As ruas escorrem os carros. As calçadas são vãos de corpos que não sabem muito bem que estranhos sinais podem lhes dizer como podem viver e morrer. Sigo caminhando, ladeado pelos manequins de um das lojas populares: parecem não escutar ninguém, apenas exibindo incólumnes e plásticos, sem rostos, expondo mercadorias a preços populares. Diria que alguns parecem me olhar e suplicar algo.

O embalo do ônibus e daqueles corpos que lá flutuam ainda viaja comigo, que vou cortando por aqui e por ali o meu traçado urbano. Pois que a terra, no meio disso tudo, exala uma alegria incompreendida. Me vem à mente Baudelaire e sua poesia. Por algum motivo eu escolhi o teatro – o encontro efêmero dos corpos num lugar – por uma espécie de devoção sem finalidade e sem qualquer ordem. São essas e outras escritas que desaparecem para sempre. Busco nas palavras um meio de dizer que algo se passou – para ver se consigo por outros meios e já em outra natureza, continuar passando.

É só mais um dia que vai.

Por Luiz Carlos Garrocho

Artista cênico/performativo, filósofo, pesquisador e professor.

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