Categorias
Arte e Cultura Filosofia Geral Literatura

Jorge Mautner: poética e política do ser

“…Mas a noite é escura/e o caminho é tão longe/que me leva à loucura/andando e dançando/no fio da navalha/eu sou um faquir/um palhaço/e um grande canalha/teu olhar pontiagudo/me crava como punhal/quero saber de tudo, tudo tudo tudo /antes do carnaval…”

Outro dia deparei-me no Youtube com Estrela da Noite, de Jorge Mautner. Uma das mais belas criações desse compositor, cantor, poeta, filósofo  e, como ele mesmo diz, “profeta do Kaos”. Mautner já trabalhava, aqui, a canção longa, quase uma narrativa, que era praticada também por Jorge Ben, Caetano e Gil. Uma ruptura com a música ligeira, introduzindo a duração e, ao mesmo tempo, um caráter mais nômade, abrindo uma série de paisagens.

Caetano Veloso lembra que Maunter foi um precursor do Tropicalismo. O que não deve ser entendido em termos de uma identidade,  de uma semelhança, ou ainda de uma causalidade. Mautner foi precursor do movimento pela singularidade, diferença e intensidade de sua própria trajetória.    

Leitor de Nietzsche, de Heidegger, e de Sartre entre outros, influenciado pela cultura negra norte-americana e brasileira, pela geração beat e pelo marxismo, passando ainda pelo judaísmo e memórias do holocausto, Mautner era uma sintetizador.  Antes de se falar em micropolítica, Mautner já a encarnava, ao transformar a existência do indivíduo em estética e política, confrontada sempre com a experiência mundial e urbana, como nos versos de Cinco Bombas Atômicas (letra de J. Mautner e música de Nélson Jacobina):

“cinco bombas atômicas/em cima do meu cérebro/quando eu era pequeno/saudades eletrônicas” .

Naqueles momentos de Tropicalismo, Mautner era uma espécie de equação nova para os dilemas da esquerda e da juventude. Não se pode esquecer a sacada de Mautner (e de Gil) para o embate colocado por um dos grupos de rock mais politizados e agressivos dos anos 60, o MC-5, de Detroit, quando estes diziam: “Are you part of the problem or are you part of the solution?”.  A banda exigia, literalmente, dos jovens, uma posição política definida. Na letra de uma música composta com Gil (Crazy Pop Rock), Mautner respondia:

“From the city runs electricity in my brains /From the cars runs gasoline up in my veins /I’m part of the problem, I’ m not the solution /I’m really the product of city pollution”.

Mautner trazia no peito “a grande confusão”, como ele dizia numa outra música. E sempre antecipando ao seu tempo,  prenunciava nos anos 50, na famosa Trilogia do Kaos (Kaos, Narciso em Tarde Cinza e Deus da Chuva e da Morte), sua opção rebelde, existencialista, afirmativa da negritude, dos mestres do samba, da mestiçagem, do movimento beat e do rock. É nesse sentido que Caetano pôde afirmar que Mautner, como um precursor do Tropicalismo, trazia uma visão afirmativa  do Brasil que, ele mesmo, Gil e até Duprat não concebiam em tanta profundidade e amplitude.

Junto com Nélson Jacobina, o maior de seus parceiros musicais, Mautner fez obras muito bonitas, carregadas de poesia, ironia e de uma ludicidade exuberante. Como é o caso de Maracatu Atômico, gravada depois por Gilberto Gil e Chico Science:

“Atrás do arranha-céu tem o céu, tem o céu/E depois tem outro céu sem estrelas/Em cima do guarda-chuva tem a chuva, tem a chuva/Que tem gotas tão lindas que até dá vontade de comê-las”

https://www.youtube.com/watch?v=Tltdwkhiz-U

E também, Lágrimas Negras, que Gal Costa canta maravilhosamente.

A Trilogia do Kaos apresenta questões filosóficas, misturadas à ficção, de um modo admirável. Ali já estava se concebendo experimentalmente esse precursor estranho do Tropicalismo. Uma obra composta quase toda nos anos 50, quando Mautner era muito jovem. Ele subia nos mais altos prédios de São Paulo para admirar o formigueiro humano, a nossa condição moderna e absurda.

Apaixonado e melancólico,  devotado ao tédio e à sensualidade, e simultaneamente contrapondo a tudo isso a alegria e a exuberância da paisagem e da vida, Mautner também falava de Nietzsche, do trágico como força criadora.

Capa do livro Deus da Chuva e da Morte: edição de 1962

Deus da Chuva e da Morte foi escrito no final dos anos 50, quando Mautner tinha entre 15 e 16 anos de idade. A ironia e a melancolia  atravessa todo esse livro de 466 páginas, narrando a si mesmo, vivendo as mais díspares contradições ideológicas e existenciais:

“Eu sou uma criança que escreve. Por duas vezes eu chorei de alegria ao ver o exército vermelho. Foi quando eu soube que eles invadiram a Alemanha e esmagaram o irracionalismo nazista o qual, eu queira ou não, representa a tomada do poder de pessoas de meu eu: o caos.”

O livro é também autobiográfico. Mautner retrata sua família, ao mesmo temo em que narra acontecimentos históricos,  leituras e vivências ideológicas e existenciais. Tudo isso vai sendo triturado ao longo das páginas, passando de um plano a outro às vezes numa sequência de poucas frases. E proclama:

“É tudo assim: as dissonâncias estão aí!”

E já naquela época defendia Heidegger, “cujas conferências nenhum nazista entendeu”. E Mautner segue sempre em zig-zag, como ele o faria a vida inteira, sempre ironizando a si mesmo e provocando reviravoltas no pensamento.

Mas, o tempo todo, este jovem escritor afirmava a liberdade diante dos dogmatismos e de todo tipo de intolerância. E nesse passo embriagado, afirma-se místico e cristão! Sua opção será sempre a de defender o indivíduo contra o opressão. Nos anos de chumbo não se deixou endurecer pelo discurso da esquerda, que procurava enquadrar a poesia, o samba, a marginalidade e toda a vivacidade brasileira num discurso, no fundo, pequeno burguês. Era o tempo das patrulhas ideológicas, do controle de todo desvio, quando o mundo explodia em revoltas, como a de Maio de 68, que não já superavam a falsa questão: liberdade do corpo ou liberdade política e social.

Como lembra Caetano numa entrevista (veja o vídeo em Mais Referências), Deus da Chuva e da Morte traz duas forças musicais:a cantora Maysa e o rock’n roll. E sobre Maysa, ele escrevia:

“E se a agonia é o meu desespero, você é o cinzento da agonia disfarçada em desistência. Eu ainda sou jovem, Maisa, e o amor em mim ainda é inocente. Você é o abismo da tristeza que mata. Eu escrevo nas tardes de sol penando na chuva. Desconhecido. Certeza de que ninguém me conhece: mas eu conheço a deusa! A deusa é você sem dúvida. A deusa da coragem porque tem a suprema coragem de ser desistente.”

A musicalidade tem força poética e política, sendo uma espécie de existenciália mautniana. Uma das mais belas passagens das memórias de Mautner, quando era colunista de um jormal (curiosamente em 31 de março de 1964), e que retrata a primasia da música e da poesia sobre tudo o mais,  fala de um encontro, em São Paulo, com os sambistas Zé Ketti, Cartola e Nelson Cavaquinho num bar:

“QUANDO os sambistas entraram no bar, os podres, os alienados, fizeram cara de enjôo. Eu ajoelhado, sabia o valor do presente que me era dado: ouvi a música, pela boca dos compositores! Os ratos, os coitados, os que fazem barulho porque nada mais sabem fazer, continuaram a falar enquanto Zé Ketti, Cartola e Nelson Cavaquinho cantavam. Mas a voz, a força dos três era maior que a alienação, a falta de educação, cultura, brasilidade, dos cafajestes. A voz dos três lembrava o coro trágico de Dionísio. Era Brasil no verdadeiro samba ‘social. Era a poesia emanando em toda a sua leveza e profundidade. Era o que de mais puro a massa produziu. Era a própria História gingando sob forma de samba!”

Jorge Mautner

Mautner sempre caminha pela não-linearidade, que ele vê em Dionísio, por oposição a Apolo. Pelos caminhos da contradição ou, antes, do paradoxo. Um dia, nos anos 80, conversávamos numa tarde de chuva sobre a música de Wilson Batista, o Bonde São Januário. E lembrei que ela era uma rendição da malandragem, pois ele cantava o trabalho e o fim da boemia, aderindo ao chamado de Getúlo Vargas. Mautner disse, então, que a letra podia até ser uma adesão ao Estado Novo, mas, “repare bem, no fundo, na melodia, no ritmo, ele pega o Bonde na malandragem”. E soltou uma boa gargalhada.

Mais Referências –

Site de Jorge Mautner

– Letras de Jorge Mautner

Por Luiz Carlos Garrocho

Artista cênico/performativo, filósofo, pesquisador e professor.

4 respostas em “Jorge Mautner: poética e política do ser”

Garrocho, gostei muito de mais este seu texto. Blog sensacional.

Mautner é mesmo um inventor de mundos possíveis, transita bem numa espécie de caosmose, entre caos, e cosmos, ali onde se pode experimentar uma espécie de osmose.

Paradoxo ambulante, pois comporta contradições e ao mesmo tempo produz movimentos. Artista de intuição aguçada, de sensibilidade produtiva, capaz de criar saídas, picadas no meio da mata escura e fria do cenário musical dos nossos tempos, especialmente no Brasil. Eis um tipo de micropolítica.

Abraços,
rfelipe

[WORDPRESS HASHCASH] The poster sent us ‘0 which is not a hashcash value.

Eu realmente vibro ao ler seus textos pela madrugada!

[WORDPRESS HASHCASH] The poster sent us ‘0 which is not a hashcash value.

Garrocho interessante o Mautner como você mesmo disse -- `existencialia´

sentei no bar com os três. Ouvi as letras beirantes a Dionisio dizendo a Apolo que aquele momento histórico esquecido foi trazido pela memória, aquela área era deles -- da maladragem.
Kaos lembrou-me um filme sobre Bósnios e Sèrvios. Kaos era o nome da criança que nasceu fruto do estupro -- a mulher como arma de guerra. Assim como Mautner se sentiu com a Segunda Guerra Mindial.
Maracatu atômico trouxe a lembrança sempre fortuita de Chico Science. Saudades dessa figura da minha geração, e saudades de outros tantos mortos.
Boa memória de Mautner sobre o patrulhamento, contra a opressão. Recentemente houve um patrulhamento: queriam abolir Monteiro Lobato. Imediatamente me veio Salvador Dalí e a pergunta -- Dali de Lorca ou de Franco? Isso tb é opressão.

mais um vez a poetica de sua escrita fez-me sentir compartilhando -- sentada no bar com vc, Zé Ketti, Cartola, Nelson Cavaquinho e Mautner.
abraço
Gisèle

[WORDPRESS HASHCASH] The poster sent us ‘0 which is not a hashcash value.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.