Gilberto Gil ao vivo é uma obra prima

 

Meados dos anos de 1970. Gilberto Gil usava uma roupa branca. Não lembro qual música  abria o show, porém, uma delas, que abre o disco correspondente, é sim a marca daquele momento. Começava de um modo estranho: “Tava comendo banana pro santo/ Pra quem?/ Pro santo/ Pra quem?/ Pro santo/ Pra quem?

A música era João Sabino.  Longa (na gravação, mais de 11 minutos) e inspirada.  E não falava da nada muito palpável: não era música de amor, não era música de protesto, não era música de nada. Música de música. Você acompanhava um movimento que, num dos sentidos, desembocava no nascer do sol: (…) Atrás do monte/ De mi pra fáSustenido, suspendendo/ Sustentando, ajudando o sol/ Nascer…   

Gil e Caetano já traziam, desde a Tropicália, algo a que a música brasileira não estava acostumada: as letras longas, enormes. Faixas que ocupavam quase um terço do LP.  Não sou nenhum conhecedor profundo disso, mas não teria sido Jorge Ben quem inauguraria essa tendência? Músicas quase circulares, que não pareciam ter começo e nem fim. Não progrediam, no sentido de encontrar uma simples resolução.

Um longo discorrer. E no final a surpresa: a volta para a localidade (Aqui na terra/ Atrás da serra/ Cachoeiro do Itapemirim), depois de uma estranheza poética e de muitas outras paisagens sonoras  intercaladas. Então, ficamos sabendo que o golpe de iluminação era, afinal, um olhar de menino. Pois João Sabino, eu imagino/ Quando era menino, via assim.

O show tinha, ainda, outros momentos estranhos. Num deles, Gil leu um longo trecho de um livro de Augusto de Campo, se não me engano, Balanço da Bossa. E lia com calma, com a plateia ali, suspensa e intrigada.

Eu estava lá. E toda a vez que eu escuto esse disco eu me transporto para aquele lugar. E fico feliz de ter presenciado aquele momento, aquela aura de Gil ao vivo. Pois, para toda fresta de cosmos que se abre, e então penetra ou exala (tanto faz) na tenra carne da terra, há a contrapartida de um viver que se configura num território. No Brasil era a ditadura militar, e os caminhos se bifurcavam aqui entre resistência política e reinvenção de si. Que Gil, de modo tão sábio e quase enigmático revelava em outra música desse disco maravilhoso: Ele disse: “Abra o olho”/ Caiu aquela gota de colírio/ Eu vi o espelho/ Ele disse: “Abra o olho”/ Eu perguntei como é que andava o mundo/ Ele disse: “Abra o olho” (…)

E então, Gil canta Herói das Estrelas, de Jorge Mautner. Um presente, digo, para uma geração que havia lido muito gibi e deparava-se, naquele tempo sombrio, com uma filosofia alegre (sim, Mautner misturava filosofia, comportamento e samba). Num dos versos, antevejo e escuto o que poderia ser uma resposta lúdica aos impasses, que carregava uma inspiração no Don Juan, de Castañeda: É que pra mim, anjo astronauta/ Só me interessam os caminhos/ Que levam ao coração.

Então, fica você para dizer se isso te ajuda ou não a atravessar os cinismos, as traições, as covardias e misérias do dia-a-dia. Para mim, ouvir Gil ao vivo traz, de novo, golpes sonoros e poéticos de pura inspiração. Mais do que um alento, uma provisão para tempos difíceis, que não cessam de retornar.

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