Experimentação artística em pauta: do contemporâneo ao intempestivo

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Das Zonas de Experimentação (ZnEx)

A experimentação artística está em pauta. Posso assim resumir a noite do dia 30.07.08, na ocasião de reabertura do Teatro Klaus Vianna, em Belo Horizonte, que faz parte do projeto Oi Futuro, incluindo o lançamento da Semana Internacional de Artes Digitais e Alternativas (SIANA-BH). Esta última, uma iniciativa da Cia Luna Lunera de teatro. Estamos definitivamente entrando em outra realidade de produção em arte e cultura. Não em termos de novo paradigma, uma superação do passado ou de outras formas de expressão, ou coisas assim. Em vez de uma  ultrapassagem, o que temos é a estranha co-habitação de criações artísticas e atitudes existenciais completamente heterogêneas entre si.

Juntamente com dezenas de outras realizações que estarão produzindo suas Zonas Experimentais na cidade (Manifestação Internacional de Performance, Festival de Performance, as intervenções do Grupo Poro, entre outras ações), revejo o acerto que foi a criação da ação Arte Expandida, principalmente com o projeto Improvisões, quando estive na direção dos Teatros Municipais de Belo Horizonte (2005-2009). Não é do meu feitio olhar para trás ou ficar rondando como um fantasma as ações e os espaços que deixamos para trás, mas também não podemos nos furtar de mostrar caminhos trilhados. Não no sentido de acumular rastros, mas de apontar para o futuro.

E assim também damos as nossas boas-vindas a projetos como o da Siana, que contribuem para a criação das zonas de experimentação. Sem falar nos espaços de formação e de trocas.

A palavra “experimentação” foi pronunciada, como toda ênfase, pelo representante do Projeto Oi Futuro: “um espaço de experimentação em arte”. Aliás, uma iniciativa mais do que louvável, necessária numa cidade com tantos criadores e público ligados na arte experimental.

Do conservadorismo e da ousadia

Não é necessário falar sobre o conservadorismo e a indiferença de alguns quando lançamos a linha Arte Expandida. Estávamos conscientes dos riscos e da coragem necessária para continuar em frente apostando na experimentação das linguagens.

Naquela noite em que  se falava da importância da experimentação,  pensei imediatamente no projeto Improvisões, idealizado por mim e por Marcelo Kraiser, no Teatro Marília. Um projeto que trabalhava com a improvisação intermídia: a cada noite, artistas de corpo, imagem e som dialogavam ao vivo, diante do público. Uma ação inusitada e que nunca foi realizada, ao que eu saiba, nesse formato. Nesse aspecto, Improvisões adiantou, em Belo Horizonte, caminhos para o futuro!

Uma crítica ao “contemporâneo”

No entanto, é necessário realizar uma crítica do momento presente, no qual se dá uma nova relação entre cultura e economia.  A chamada “arte contemporânea” é um de seus produtos. Falo especificamente de  uma “frivolidade artística” promovida pelo mercado. e que solicita nossa adesão aos seus princípios. Mas não entendam isso como um julgamento das criações   compreendidas sob tal rubrica, a do contemporâneo. E nem tampouco incluo nisso um projeto como o Verão: Arte Contemporânea. Também pagamos um preço muito alto por apóia-lo quando estávamos à frente dos Teatros da Fundação Municipal de Cultura. Mas quando se faz arte e cultura para valer sabemos que o preço não sai barato. O Verão é um projeto que entende o contemporâneo como aquilo que pensa a problemática de seu próprio tempo. Porém, falamos de “arte contemporânea” como se tal categoria produzisse algo novo. Pelo contrário, é a repetição do mesmo. Nela se esconde todo um jogo de sedução.

Numa primeira visada, a designação parece ser meramente classificatória: antigo, moderno e contemporâneo – o que isso quer efetivamente dizer?  Classificar não é pensar, mas apenas a paralisação do seu movimento. Porém, há  uma produtividade nessa expressão, quando opera nas escolhas, definições e estratificações que modelam um mercado.  Engendra-se uma esfera de poder, que decide sobre “o que deve  e o que não deve ser” em arte. E o “contemporâneo” se presta a isso.

Fugindo dessas armadilhas, é preciso tornar-se, antes de tudo, extemporâneo, como afirma Bernard Stiegler, um pensador francês que tem se dedicado à arte e a cultura na perspectiva de uma ecologia do espírito. Gilles Deleuze nos diz que não se trata nem de ser eterno e nemde ser contemporâneo, mas sim de criar formas de resistir ao presente:

“Graças a Nietzsche, descobrimos o intempestivo como sendo mais profundo que o tempo e a eternidade: (…) ‘contra este tempo, a favor, e assim o espero, de um tempo por vir’.”

Umberto Eco escreveu há muitos anos um livro muito interessante: Apocalípticos e integrados. Não se fala mais disso. Ele se voltava mais sobre as questões da nascente cultura pop e de massas e a reação “apocalíptica”, principalmente da Escola de Frankfurt. Os tempos são outros. Mas a vale a dica: nem um nem outro, ou como diria Nietzsche, nem grego nem cristão. Há que se reiventar sempre e de novo.

O capitalismo libera forças  e potências que eram inconcebíveis há anos atrás. Foi assim no momento da revolução industrial: forças do operariado, consciência de classe, movimentos de massa, emergência de singularidades de gênero, de raça, de opção sexual, de expressão existencial etc.  Mas procura, a cada liberação, recapturar essas forças desterritorializantes, reconduzindo a propriedade, o lucro, a apropriação das riquezas, a estratificação etc. Nesse momento as tecnologias, as potências midiáticas, a horizontalidade e conectividade da internet, tudo isso e muito mais nos colocam ferramentas e recursos de outra ordem: não mais a da classe, da massa, mas da multidão, da multiplicidade e das singularidades (vide Negri e Hardt). Abordei o assunto em outras postagens,  discutindo numa delas  economia da cultura e diversidade cultural e noutra os modos de resistência.

A experimentação está dando  direção dos tempos.  No entanto, desconfiemos das frivolidades contemporâneas. Baudelaire se recusou a ser o poeta de um deus ausente, como demandava a burguesia moderna, reverteu isso em flores do mal. A nova demanda é que sejamos contemporâneos na arte e na filosofia.  Nietsche nos deu a dica:  não sejamos nem modernos e nem eternos, mas sim intempestivos.

O diretor teatral polonês Jerzy Grotowski dizia que o erro do futurismo foi ter aderido à era da máquina.  Em outras palavras: ter se tornado contemporâneo.  Na verdade, a trajetória de Grotowski é curiosa: ele fez uma volta, retomou o passado e abriu nele um fenda de futuro. Seu pensamento e poética formam uma resistência ao presente. Encontramos, nessa atitude, conexões com  as trilhas de  Foucault e Deleuze.

Digo uma coisa polêmica e espero não ser compreendido mal: a “arte contemporânea”, como produto e representação de uma forma sutil de assujeitamento, é frívola.  Não falo da arte do nosso tempo, mas de uma arte que deixa-se seduzir e funciona aliada a um poder que, como diz Marcelo Kraiser, tornou-se líquido. É frívola não porque nos ancoramos no passadismo, ou o que seja. A frivolidade vem daquilo que Suely Rolnik chama de “arte cafetina”, aquela que controla as irrupção das forças eróticas da vida:

“A lógica mercantil-midiática, que o capitalismo cultural impôs no terreno da arte, atua dentro e fora do mesmo. Dentro, a operação é mais evidente: ela consiste em associar práticas artísticas ao logo de grandes empresas e bancos, agregando-lhes com isso “poder cultural”, o que incrementa seu poder de sedução no mercado. O mesmo vale para cidades que hoje têm nos museus de arte contemporânea, e suas espetaculosas arquiteturas, um de seus principais equipamentos de poder para inserí-las no cenário do capitalismo globalizado, tornando-as assim pólos mais atrativos para investimentos. É certamente por sentir a exigência de enfrentar a opressão da dominação e da exploração em seu próprio terreno – que resulta da relação específica entre capital e cultura sob o neoliberalismo -, que muitos artistas passaram a optar pelas estratégias extradisciplinares, agregando a dimensão política às poéticas de suas ações.” (1)

A adesão fica por conta das novas e sutis modalidades de expropriação e de estratificação. E o mercado emergente de arte, como bem o demonstra Suely Rolnik, não fica fora disso. O cineasta Júlio Bressane disse, certa vez, que o verdadeiro fabulador e criador é o povo, sendo que as elites intelectuais sempre souberam se apropriar disso e transformar em alta cultura. Todo o movimento de propriedade intelectual não deixa de passar por aí, para se dar apenas um exemplo. A frivolidade consiste, também, nesse movimento. Mais do que isso, tem sua essência na adesão e na figuração, principalmente no papel ilustrativo, de reproduzir esse movimento de captura. Não tem a coragem do afrontamento. Conteta-se em comportar-se. E sob uma nova “aura”: a da novidade.

As forças e potências estão sendo liberadas e simultaneamente recapturadas e reconduzidas para um recrudescimento do poder, do controle e da exclusão (2). Então, estamos numa nova confluência de micro-política e macro-política, como diz Suely Rolnik.

E para retomar ecos de Eco, não cabe ser nem apocalíptico e nem integrado. Aliás, essas alternativas estão superadas – tanto do ponto de vista de uma economia da cultura quanto de uma economia da libido. Teremos que nos reinventar mais uma vez!

Referências

(1) ROLNIK, Suely – Desentranhando futuros

(2) Veja sobre o assunto o livro magistral de Peter Pal Pelbart: Vida Capital: ensaios de biopolítica. Iluminuras.

Veja também: Como ficam as micropolíticas: resisistir é capitular?

Espaço futuro: www.oifuturo.org

4 comentários em “Experimentação artística em pauta: do contemporâneo ao intempestivo”

  1. Acho que de certa forma os projetos do Arte Expandida, permitiram não só uma vivência de alto nivel nos campos improvisacionais como um ótimo encontro entre pessoas interessadas nisso (e muitas vezes tendo seus primeiros contatos com um outro tipo de pensamento estético). Projetos como esse se mostram extremamente fecundos e mesmo que no campo institucional eles aparentemente tenham acabado, eles ainda reverberam e muito pelas pessoas que participaram e presenciaram.
    Me considero meio “formado” e “formador” disso tudo…
    Abraço Garrocho!

  2. Paulo,

    Você e seus comparsas tiveram uma participação muito fecunda no Arte-Expandida. Disse bem: formando formador. Serviram inclusive para mostrar caminhos. A cena “A sociedade do espetáculo” foi uma coisa genial. Até hoje essa cena reverbera em mim, nas suas ações, de Tiago, Naiara e Cris. Vocês criaram um poema visual e contundente, numa dramaturgia nova, que explode a fábula…

    Ocorre que as variações contínuas que são os núcleos a-centrados de criação não se encontram defendidos em termos de políticas públicas pelos grupos institucionalizados e mais afeitos à macropolítica, pela via da defesa corporativa etc. Não ser contra isso, mas passar oblíquo e conseguir sobreviver (e ter acesso aos recursos públicos) pode ser uma das estratégias de um povo do porvir, de pura alegria.

    Longa vida ao Conjunto Vazio, sua máquina de guerra!

    Ocorre qu

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