Edições N-1 começa com Kuniichi Uno e Félix Guattari

“O livro como imagem do mundo é de toda maneira uma ideia insípida. Na verdade não basta dizer Viva o múltiplo, grito de resto difícil de emitir. Nenhuma habilidade tipográfica, lexical ou mesmo sintática será suficiente para fazê-lo ouvir. É preciso fazer o múltiplo, não acrescentando sempre uma dimensão superior, mas, ao contrário, da maneira simples, com força de sobriedade, no nível das dimensões de que se dispõe, sempre n-1 (é somente assim que o uno faz parte do múltiplo, estando sempre subtraído dele). Subtrair o único da multiplicidade a ser constituída; escrever a n-1. ” Gilles Deleuze e Félix Guattari

Com essa citação nas páginas internas de um dos livros, o filósofo e ensaísta Peter Pál Pelbart lança no Brasil  as Edições N-1, que fazem parte do projeto Future Art Base, sediada em Helsinki (Finlândia). Uma plataforma de “pesquisas e desenvolvimento sobre o futuro da arte – a arte de reabrir os possíveis” – como citado no site. 

Os dois primeiros títulos, com edição bilíngue, são: A gênese de um corpo desconhecido, de Kuniichi Uno e Máquina Kafka, de Félix Guattari. Outras obras já foram anunciadas, entre elas Signos, máquinas, subjetividades, de Maurizio Lazzarato e Manifesto para Future Art Base, de Franco Berardi – e que venham logo!

A Gênese de um corpo desconhecido tem prefácio de Christine Greiner e é traduzido por ela com a colaboração de Ernesto Filho e Fernanda Raquel. O autor, um filósofo e ensaísta que estuda Deleuze, Guattari, Foucault, Bergson, Clarice Lispector, Genet, Beckett, Kafka, Hijiikata Tatsumi, Artaud, entre outros. São diversos ensaios bem heterogêneos, mas que se reúnem sob os temas do corpo, do tempo, do teatro e da dança. Um pequeno trecho que me caiu sob os olhos e me impressionou:

“Genet e Artaud revelam dois tipos de teatro muito diferentes, mas ambos estão perfurando as superfícies que cobrem nosso corpo, nosso pensamento, nossa vida, para descobrir ou construir um plano que atravesse todas as dimensões da vida, especialmente quando o objetivo dos poderes e das instituições consiste em manter ou reinventar todas as fronteiras, determinando as dimensões da vida, dividindo o corpo vivo em diferentes instâncias.”

Cada edição é uma criação singular. Máquina Kafka, por exemplo, vem com parafusos. E precisei de uma chave de fenda para abrir essa máquina, literalmente. O livro tem seleção e notas de Stéfhane Nadaud, tradução e prefácio de Petel Pál Pelbart e posfácio de Akseli Virtanen. Lembremos-nos do genial livro que Deleuze e Guattari também escreveram juntos: Kafka – por uma literatura menor. Pelbart lembra no prefácio intitulado “A bordo de um veleiro destroçado” que, para os autores, Kafka

“é o nome de um agenciamento coletivo de enunciação. Sua solidão é povoada, sua individualidade é coletiva, sua enunciação é a de um povo, mesmo que esse povo ainda não exista, ou esteja por vir, ou jamais venha a existir.”

E o detalhe que não pode passar despercebido: os livros podem ser citados e reproduzidos em parte para uso não comercial, individual e coletivo, desde que citada a fonte. No caso da necessidade da reprodução integral, deve-se consultar os editores. Também, aqui, uma nova política editorial.

Referências –

Future Art Base

N-1 Publications

–  PELBART, Peter Pál. Da clausura do fora ao fora da razão. São Paulo: Iluminuras, 2009.

–  _____________. O tempo não reconciliado. São Paulo: Perspectiva, 1998.

-________________. A vertigem por um fio. São Paulo: Iluminuras, 2000

– ________________. Vida Capital. São Paulo: Iluminuras, 2009. 2a ed.

 

 

 

 

 

 

 

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