Dentro do ônibus: o povo de algum lugar

Sexta-feira antes do entardecer, o clima um pouco suave devido às chuvas que parecem ter caído em algum lugar,  com a luz solar inundando a paisagem. Mais uma vez tomo um ônibus diametral, em Belo Horizonte – desses que atendem à região metropolitana. Não estava indo a algum bairro distante ou cidade, mas sim aproveitando essa viação que passa na rua onde moro, quando pretendia ir ao baixo centro da cidade.  Mais precisamente, querendo descer na Praça da Estação.

Subo os degraus do veículo pela porta da frente e me vejo, subitamente, num ambiente outro, que oscila algumas sutilezas. Havia um clima de alegria intimista e aconchego. O veículo deslocava-se com calma, numa velocidade quase constante, sem solavancos e viradas súbitas como é de costume. Cumprimento o motorista, e me preparo para pagar a passagem quando o moço sentado no lugar do trocador, falando no celular, me diz sorrindo:  – sou um passageiro como você,  pode pagar para o motorista. Me lembro, nessa hora, que os trocadores, então chamados de “agentes de bordo”, foram demitidos dos transportes públicos metropolitanos.

Ao passar pela roleta, vejo à esquerda uma mulher jovem, de short, com dois filhos por volta dos cinco a sete anos sentado ao lado, tendo um carrinho com o terceiro, bem mais novo,  próximo ao seu corpo, no corredor de passagem. Me pergunta se dá para eu passar e eu digo que sim,  e vou deslizando por entre as pessoas e as coisas, procurando um lugar um pouco mais ao fundo, em pé. Momentos depois, quando ela desce, percebo que é a mulher do moço sentado no lugar do trocador.

Minhas percepções flutuam como se estivesse numa balsa oscilando levemente.

À esquerda, na parte central do veículo, onde normalmente há um pequeno vão, um homem encosta-se e protege uma pilha de objetos: duas caixas de isopor e uma pirâmide de sacos de biscoito. Vejo mais tarde que irá descer na região da Praça da Estação, buscando o fim de tarde e o princípio de noite, a fim de encontrar possíveis consumidores.

Perto de mim, um senhor de idade, com um chapéu típico de palha sintética, ao lado de uma menina que parecia ser sua neta. Ele se levanta, deixa o chapéu no lugar, a menina cuida do assento, abraçando o objeto do avô. O homem volta com outra menina, as duas se acomodam, uma sentando no colo da outra. Sorrisos luminosos.

Algumas senhoras mais gordas se distribuem aqui, ali, por vários lugares.  Já próximos da porta do meio, dois jovens se destacam. Ele o Muhammad Ali com seus 17 anos, olhos de oriente, cabelo afro, mas de uma delicadeza de fina estampa. A moça, a Barbarela tímida do interior, quem nem sabe que é, com luzes nos cabelos, batom vermelho claro, usando um short com apliques brilhantes. Não pareciam namorados, mas era como se fossem.

As pessoas conversam com calma, em tons baixos. Parecia sim que vinham de longe. Tudo junto à calma do motorista em dirigir e uma certa estabilidade de veículo novo.  Respiro um ar de calma interiorana. Viajavam, viajamos, mas sem o enfado das longas travessias em que os corpos querem preencher a todo custo suas ausências. Ninguém de mal humor, ou muito cansado. Não nos dávamos conta de que o tempo passava suavemente, que a terra se regozijava naqueles corpos, como se dissesse são meus brotos, meus arvoredos, meus arbustos, minhas árvores velhas, minhas rochas banhadas em luz, num entardecer qualquer. Uma sensualidade brejeira atravessando o turbilhão da grande cidade.

Ao chegar na Rodoviária, alguns descem. Mais à frente, outros. Depois, na Praça da Estação, desço também e, sem olhar para trás, me despeço daquela fresta que se abriu, por um momento, no entremeio cotidiano.

Notas

 

 

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