As linhas intensivas de um corpo em situação de rua

Imagem: Daniel R. Blume/Creative Commons

 

Ainda não são nove horas da manhã, na Praça Rui Barbosa (Praça da Estação), em Belo Horizonte. Imerso na questão das linhas de composição. Há sim um tema subjacente a esse olhar: as linhas e os traçados de composição. Estou indo para uma reunião num projeto de uma Escola Livre de Artes. 

A poiesis dos corpos imersos no cotidiano – fora do campo da intencionalidade artística – é o que vem  me ocupando. Para pensar o movimento e o que pode ser uma cena. Par pensar o corpo e suas potências. Nesses momentos, a cidade é um terreno fértil de pesquisa. O olhar típico do voyeur, tão afamado nas teorizações sobre a cena, não é esse o plano que produz a consistência dessa busca,  mas sim  um estado meditativo, no qual o observador se observa também no ato de observar. 

Deixo de lado as linhas arquitetônicas, os movimentos perfilados dos transeuntes que saem massivamente da estação dos trens urbanos (e que muito me impressionam) indo para seus afazeres, para me deter nas pessoas em situação de rua. Naqueles que perderam, que foram destituídos ou ainda que abandonaram por algum motivo esses objetivos. Venho constatando nos últimos anos o número crescente de pessoas  que assim se encontram, suspensos que estão nesse vazio.  Que se encontram quase absolutamente desassistidos pelo Estado.  Somente nessa praça percebo mais de uma centena.  São esses corpos que tomam a minha atenção.  Diria ainda: atores/atrizes, performadores/performadoras, bailarinas/bailarinos, aprendam a olhar esses corpos em ruínas, aprendam com esses corpos em estados outros.

Alguns dormiram ali, outros provavelmente passaram a noite em um abrigo municipal que não fica longe da praça. Há pequenos agrupamentos nos quais alguma coisa é compartilhada: das conversas, dos cigarros às  garrafas de cachaça. Outra parte, de indivíduos aparentemente solitários, alguns ainda dormindo, se espalha pelos bancos, muitos deles deitados, cada um com seu cobertor.

Nesse rastreamento, meu olhar se detêm por um momento sobre o corpo de um jovem negro, meio que habitando um espaço entre o deitar e o erguer, com os pés no banco de cimento da praça, os joelhos dobrados, um dos braço às vezes acenando a algo tão distante quanto próximo, e o outro a manipular o cobertor. Como uma pessoa que estando deitado tem de se sentar um pouco para dizer algo a alguém, ajeitando a coberta a essa nova posição, para logo em seguida deitar-se de volta, retomando o estado de quietude. Que nesse caso dura pouco. O movimento se reitera diversas vezes, num fraseado de imagens corporais. Ele tem o dorso nu, está descalço e se veste com um calção ou bermuda de cor verde.

Percebo toda uma arquitetura de linhas. Elas sustentam um tônus que se ergue no vazio e no vazio se mantém em suspenso, para fazer outros dobramentos. A cada movimento ele entrava noutra posição e a mantinha formando uma escultura viva, feita de linhas intensivas.
Explico o que entendo por linhas intensivas. Mais proximamente, um outro corpo contrasta totalmente com esse que toma o meu foco. É um jovem deitado sobre o banco da praça, de calça jeans, camisa, tênis e boné, que recosta a cabeça na mochila e consulta um celular.

Há nesse corpo um estado relaxado, apesar de articuladamente atento ao entorno. As linhas de intensidade não passam ali. Não há uma arquitetura que respira sua própria vida. Não se ergue um monumento – para pensar com Deleuze Guattari.  Observo igualmente outros corpos nessa situação: meio que abandonados, meio que a espera do que não vem ou nunca poderá vir, meio que desistidos ou ainda insistindo em algo que, no entanto os fez parar ali. Sim, há um intenso a percorrer alguns desses corpos. Mas de outra ordem: corpos boiando num mar de náufragos, exauridos, meio que à espera de um socorro que não vem nunca e somente o sol o mar liso em volta. O do jovem com o celular e outros em situação similar mostram o contrário disso: os seus interesses e ocupações não o deixam no espaço entre de  uma vaga – ou ao vago, para lembrar Fernand Deligny e suas observações sobre as linhas de errância das crianças autistas.

O jovem em questão, objeto desse pequeno ensaio, vai desdobrando imagens após imagens e componho histórias que ainda não são histórias, pois que não me interessa despejar nele minhas considerações e saberes. Mas sim captar os perceptos e afectos desse corpo – possivelmente de um psicótico, dados alguns indícios (falando sozinho em voz alta, como se um mundo a volta o escutasse e ninguém ali perto dele). Ele navega, ele naufraga, ele se ergue e afunda de novo, sucessivamente – numa repetição diferencial. 

Ainda assim alguns corpos formam isso que eu penso ser uma arquitetura de linhas intensivas. Volto-me ao jovem que se cobria e se descobria com o seu cobertor,  e me pergunto para onde ele olha quando se ergue. Que terras longínquas avista ou que interlocutor lhe faz companhia sem que eu possa vê-los. Tive a impressão, depois, que me percebia também, dado que eu o observada, mesmo com cuidado para não tornar isso evidente.

Por isso, desfiz meu olhar, retomando um enquadramento mais amplo da Praça repleta de pessoas em situação de rua. . Deixando que o meu olhar flutuasse um pouco, sem focar demoradamente aqui ou lá, até dar a hora de ir para o meu compromisso ali perto. Com a minha memória tomada pelo intenso dessas linhas que compõem uma poiesis do corpo.

Volto-me ao tema da poiesis e do monumento. Você poderia me perguntar com que direito eu me aproprio da imagem de um corpo que não está compartilhando comigo desse ato de observação. Com que direito teço narrativas sobre poesia corporal? E não seriam essas puro construto do meu olhar, que nada têm a ver com aqueles que lá estão ao abandono de si e da sociedade? Não seria puro voyeur?

Penso que é tudo isso de outra ordem. Que tais categorias não nos ajudam a pensar esses corpos e suas poéticas possíveis, suas potências destroçadas pela vida cotidiana, por uma sociedade incapaz de uma solidariedade mínima, incapaz de estabelecer políticas protetoras. Que seriam políticas que trariam à tona as potências desses corpos e lhes permitiriam aceder à vida pública e a estabelecer vínculos outros.

A poiesis é uma instauração/fabricação de um mundo. E o monumento é o que Deleuze e Guattari dizem sobre a composição em arte (no livro O que é filosofia?). Não o monumental. Mas aquilo que se sustenta por si. Uma duração – que seja um átimo. Nesse aspecto, talvez não fosse nesse corpo que me parece o de um jovem psicótico, possível ver o monumento. Pois que ele sempre naufraga. No entanto, meu olhar o salva por um instante e eu componho nessas linhas aqui traçadas um poema e ergo com os perceptos e afectos que esse corpo me proporciona um monumento. Uma reverência, sim.

Paulo Rocha, um performador e anarquista, disse certa vez que os movimentos dos pobres desvalidos e em situação de rua na cidade o lembravam os artistas do Butô – essa dança outra dos ventos varridos nos corpos esquálidos, cortados pelas próprias imagens que produzem. Também me lembra o que uma vez  disse o Mestre Zen Ryotan Tokuda, nos idos dos anos de 1970, em uma palestra: que os mendigos são como sutras budistas nos quais podemos ler.

 

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