Gilles Deleuze: A de animal

Do Abedecedário de Gilles Deleuze, em entrevistas conduzidas por Claire Parnet: a  letra A de,  Animal, em três partes. A fala de Deleuze é magnífica. Ele produz, como é característico de sua filosofia, um conceito em devir. Assim, ele fala do animal e também, devido à provocação de Parnet, do escritor. Deleuze diz ele admira essa redução que o animal produz, ao selecionar aquilo que o afecta. É isso o que “faz um mundo”, diz Deleuze.

O animal constrói um território. E “construir um território para mim é quase o nascimento da arte”. Mas o território “só vale em relação a um movimento através do qual se sai dele”. Então, Deleuze fala da desterritorialização, um conceito criado por ele e por Guattari. »Read More

Violência policial em BH: Não pise na grama

 

Reproduzo a seguir nota do advogado Joviano Mayer, que foi preso com violência pela Polícia Militar ao defender um amigo que havia pisado na grama, durante um evento cultural em praça pública, em Belo Horizonte.

O problema, adianto, não é somente a violência perpetrada por alguns indivíduos imbuídos numa função que deveria ser a de proporcionar segurança aos cidadãos. Mas sim nas orientações que estes recebem e no acobertamento flagrante de seus atos ilícitos. Belo Horizonte vive uma crise de segurança, escancarada desta vez pela imprensa.

A Polícia Municipal, por sua vez, antes desarmada e próxima dos cidadãos e das comunidades, agora exibe suas armas de choque elétrico e se mostra mais agressiva. Em Belo Horizonte, patrimônio edificado tem se mostrado mais importante do que a vida, o convívio mediado e a expressão.

E o efetivo policial militar se mostra ausente na proteção aos seus cidadãos, mas totalmente presente quando se trata de cumprir ordens do Estado-Polícia. E mais do que isso, de interpretar ao seu modo, em situações de conflito, o que entendem por missão da polícia.  A falta de preparo, o desequilíbrio emocional, o desrespeito às leis e ao cidadão, a falta de salários dignos e a inexistência de investimentos, tudo isso faz parte de nossa “política de segurança”.

A seguir, o depoimento. É de ficar estarrecido. A pergunta: vai ficar nisso? »Read More

O Estado se exprime pelos vazios

Lefebvre disse que o Estado se expressa, na cidade, pelos vazios. Não necessariamente por meio de “espaços não cheios”, como Sérgio Martins, tradutor de A revolução urbana, me lembrou. Pois os espaços urbanos tomados por uma infinidade de  carros  e viadutos, assim como de pessoas transitando apressadas de um lado para o outro, também seriam vazios. Num e noutro caso, uma negação ou exclusão de práticas sociais e de convívio.

Aliás, eu não curto muito a expressão “vazios” para esses casos. Compreendo a denúncia de Lefebvre. Porém, prefiro guardar o “vazio” para um agenciamento de outra ordem. Prefiro chamá-los de “lugares da ausência”, ou para pensar com o antropólogo Marc Augé, de “não-lugares”. Uma negação do lugar como prática social:

“o não-lugar é o contrário da utopia: ele existe e não abriga nenhuma sociedade orgânica”.

Os dois conceitos não dizem a mesma coisa, mas se conectam.  Eles expressam essa ausência. No caso em tela, os “lugares da ausência” que o Estado produz através do urbanismo, visando os interesses do capital. »Read More

Micropolíticas. Por Eduardo Pavlovsky

 

Eduardo Pavlovsky, dramaturgo, ator, diretor, psicoterapeuta e escritor, aborda as micropolíticas num texto inspirado e esclarecedor. Publico aqui algumas partes (o artigo completo, encontra-se na Revista Herramienta, vide Referências). Seus escritos sobre teatro apresentam a perspectiva das intensidades, da invenção, da resistência e do corpo. Fala Pavlovsky:

“Lo micropolítico es la expresión de un suave murmullo, a veces imperceptible, que los condenados de la tierra, los excluidos del mundo comienzan a expresar. Algunos no lo perciben. Son los que escuchan sólo los ruidos de los medios que nos intentan ensordecer todos los días. Es un problema clínico de auscultación. Son las voces nuevas que, con otras tácticas, se contagian por todos los continentes expresando sus balbuceos en sus diferentes singularidades. Pero el murmullo existe y hay que saber percibirlo. Se expresa a veces como murmullos inaudibles de los condenados, que quieren sólo recuperar la potencia de su dignidad humana en nuevas formas de expresión. Ninguna protesta se parece a la otra. Cada una expresa su propia diferencia y singularidad. »Read More

As linhas desejantes de uma vida fascista: O Conformista, de Bertolucci

 

Rever O Conformista (1970), de Bernardo Bertolucci, depois de tantos anos, foi uma experiência tão fascinante quanto intrigante. A questão que permanece: a análise das motivações para uma pessoa aderir ao fascismo. E mais ainda: o que seria uma existência fascista, afinal?

O fascismo, mais do que uma ideologia específica (contra a democracia, o parlamentarismo e também contra o socialismo, sendo que o indivíduo se conforma ao coletivo, à corporação e ao Estado), é uma atitude existencial-política. É o que mostra Michel Foucault em Introdução à vida não fascista:

“o inimigo maior, o adversário estratégico (…): o fascismo. E não somente o fascismo histórico de Hitler e de Mussolini – que tão bem souberam mobilizar e utilizar o desejo das massas -, mas o fascismo que está em nós todos, que martela nossos espíritos e nossas condutas cotidianas, o fascismo que nos faz amar o poder, desejar esta coisa que nos domina e nos explora.”

Marcello (Jean Louis Tringnant) é um intelectual que procura o seu amigo cego,  ideólogo do Partido, para aderir voluntariamente ao fascismo. Ao mesmo tempo, pretende-se casar. Seu amigo pergunta o motivo  e ele afirma: para ser uma pessoa normal. Uma pessoa que, segundo ele, ao ver o traseiro de uma mulher, olha para trás, admira e segue em frente. A trivialidade de uma vida como a de qualquer um. Marcello quer ser igual e, como todos os iguais, eliminar em si e nos outros toda e qualquer diferença. »Read More