Categorias
Iluminações avulsas Urbano

Porosidades de uma poética do urbano

O novo site do Poro – intervenções e ações efêmeras – está um primor. Não só devido à elegância do visual, mas também às funcionalidades – nele você encontra tudo sobre os traçados e repertórios da dupla de artistas que o formam. Além de referências que desdobram e conectam esse plano de porosidades poéticas que a dupla de artistas, Brígida Campbell e Marcelo Terça-Nada! desenvolve desde 2002.

Categorias
Ativismo e Análise Política Geral

56 anos do golpe militar de 1964

Imagem do Coronavírus

A entrevista coletiva do Ministro da Saúde, em meio ao avanço da pandemia do Corona Vírus no Brasil, no dia que antecede os 56 anos do golpe militar de 1964 foi sintomática. Cercado por ministros, coordenado agora por um militar, o ministro da saúde não teve liberdade para conduzir a reunião com a imprensa e as mídias.

Tudo montado com o objetivo de conter o ministro, que procura se ater às orientações técnicas e científicas, inclusive da Organização Mundial da Saúde, para desgosto do presidente que se pauta por um desgoverno e, mais do que isso, por necropolítica e pulsão de morte, exigindo a toda hora que o ministro se curve e abra mão do isolamento social, necessário segundo líderes e cientistas mundiais, para conter o vírus e evitar mais mortes.

Categorias
Iluminações avulsas Poesia

A sede das areias quentes

Os braços são esponjas.
O coração.
A veia torta.
A nau enfim descoberta,
Nos olhos se faz sinistra presença.
Que tempo e nó serão esses?
A porta estava aberta e o sofrimento entrou.
Injeção letal
Pendurando na parede seu vestido
Líquido vítreo.
Quem escreve a sentença?
Eu?
Você?
As sombras ou as sobras?
As cotidianas migalhas de sonhos esmagados?
Aves que migram,
Cascos e borrascas,
Anjos e tintas magras,
Escrevam um bilhete para quem amo.
Digam que o amor sobrevive a tudo.
A quase tudo.
Não demorem,
Por um segundo se perde o segundo.
Num voo ralando suas plumas num chão de corte,
Na mão da sorte,
A estrela,
No começo da estrada, 
Está partida
E me pede que a guie.
Visões são sentimentos pagando pensão ao destino.
Vá, escreva logo este bilhete!
Não deixe que demore.
Os ventos ligeiros levarão esta mensagem
Ruflando através da noite.
Mas podem as palavras alguma coisa?
Marília e Dirceu?
Miragens são grades que dão para um mar seco.
Como pode a palavra ser língua
Enquanto míngua o amor nas trincheiras
Do dia a dia?


		
Categorias
Crônica Iluminações avulsas Urbano

O sorriso iluminado de um condutor de ônibus

Quando piso no primeiro degrau do ônibus, deparo-me com a frase “seja bem-vindo”. Curti aquilo e cumprimentei o motorista: – Bom dia! E ele me devolve outro “bom dia” com um sorriso impressionante, muito raro de se ver nas paisagens que habitamos, nas quais o mau-humor, quando não a ironia corrosiva, tem sido um afeto dominante.

Ocorre que, ao passar por aquele senhor de cabelos brancos e sorriso iluminado, veio-me a lembrança do Cigano, o motorista que contagiava a nós, garotos da década de 60. Cigano era um jovem por volta dos seus vinte anos, com imensas costeletas, a camisa um pouco aberta e uma colar tipo corrente no pescoço.

Categorias
Geral Iluminações avulsas Urbano

É só mais um dia que vai

A parte da frente do ônibus, anterior à roleta e onde fica o motorista, começa a encher sem parar. Ali se juntam algumas pessoas idosas que não têm o cartão de passe livre e devem descer pela porta da frente, e mais alguns e algumas jovens que provavelmente não pretendem pagar passagem. Tarde de um final de recesso escolar. Os corpos e as sensações flutuam dentro do coletivo de transporte.

A moça de musculatura forte, quase certo que por natureza ou trabalho, está de short e senta no colo de uma outra, também de short. A roupa é mínima. O olhar dessa que se senta no colo da outra é vago e parece não estar ali, naquele ônibus, naquele momento. Olha à frente e para o lado através da janela como se nada existisse, ao mesmo tempo em que está atenta, de algum modo, ao seu entorno. Diria que ela, se provocada, encara e bate – uma suposição apenas. Parecem personagens de algum filme futurista que entraram ali. Por outro viés, esse que escreve é um personagem do passado e não entende nada do que está se passando nesse mundo que lhe advém. Um modo de ver e sentir deslocado é salutar e potente quando não é um julgamento. Pois permite o estranhamento de si e de tudo em volta.